Hollywood não é aqui

“Pequeno Segredo” foi revelado como a escolha do Brasil para a disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro. Para além de ter desbancado o favorito – e belíssimo – “Aquarius”,  o filme indicado só vai estrear em 10 de novembro, o que o colocaria fora da competição e apto à competição do ano que vem. Ele se valeu de um detalhe técnico, anunciando uma pré-estreia antes de 30 de setembro para poder participar. Que aliás, segundo matéria do UOL, nem data marcada tem. Como validar um filme sem carreira em festivais e que, como não estreou, não tem termômetro de crítica ou público no Brasil, como o representante do país?

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O trailer revela uma estética publicitária, mais próxima de filmes estrangeiros, mas não dos que concorrem a filme estrangeiro no prêmio da Academia. O que é reforçado por parte do elenco ser de fora e grande parte do filme ser falada em inglês. E não é só o elenco: parte da equipe, entre cargos altos de direção e cargos menores de assistência é assumida por estrangeiros (o que vocês podem checar aqui, na sua página do imdb). Uma aposta para internacionalizá-lo – mas que diz muito sobre a valorização (ou não valorização) de um mercado que a muito custo se faz ouvir.

O que mais choca não é o deferimento de “Aquarius”, preferido para disputa, filme pungente e que, em tantos níveis (inclusive o artístico), escancara nas telas o Brasil. Mas sim os argumentos usados pelo comitê para selecionar o “Pequeno Segredo”. Pego as informações seguintes de uma matéria do G1, de 12 de setembro de 2016. As falas de seus membros são desoladoras:

Segundo Luiz Alberto Rodrigues “A gente considerou essa hipótese: que filme teria maior potencial para seduzir o júri da Academia a escolher como concorrente a filme de língua estrangeira?” Marcos Petrucelli, o pivô da discussão de legitimidade do comitê – frente a críticas que fez à manifestação política da equipe de “Aquarius” em Cannes – foi além: “A gente tentou encontrar um filme que tem essas características do cinema ‘da cartilha'”.

Declaradamente escolheram um filme que reproduz a estética de fora em detrimento do cinema que escancara o Brasil. Critério dúbio, já que não é essa a característica que a Academia valoriza nos filmes estrangeiros. Ou alguém acha que Almodóvar é indicado por reproduzir quase fielmente a estética hollywoodiana? Se acham que ele tem potencial para ser equiparado aos filmes norte-americanos – inclusive em equipe e estética –, há outros caminhos. Como estrear em circuito comercial de lá (uma semana em cartaz na região de Los Angeles já garante essa possibilidade) e concorrer de igual pra igual nas demais categorias.

Enquanto não valorizarem o cinema brasileiro como aquele que reproduz essencialmente as histórias e a estética nacional, com todas as suas falhas e percalços – que sabemos tanto que não são poucos, quanto que estão sendo vencidos com incentivo e muito suor nos últimos anos –, ele estará sempre assim. A um passo de ser desbancado.

As diversas telas para um diverso Brasil

Quando estava na faculdade de jornalismo, sonhando cinema enquanto concluía o curso, dizia por aí que eu gostaria de trabalhar com TV, mas não com conteúdos: com ficção para TV. Não me surpreende tanto eu estar trabalhando com isso agora, mas sim o quanto o mercado se transformou e se moldou a ponto de que trabalhar com TV, e com ficção para TV, seja normal. Um caminho como os outros, reconhecido e remunerado – uma década atrás seria impensável cobrar por um serviço de desenvolvimento, em editais que só contemplavam a filmagem em si.

Isso foi possível por uma série de medidas da Agência Nacional do Cinema (Ancine), entre elas o FUNDO SETORIAL DO AUDIOVISUAL, criado em 2001 e que desde 2011 recolhe recursos junto às empresas de telefonia (que em troca receberam o direito de operar a distribuição de pacotes de TV por assinatura). Longe de acomodar os profissionais, os editais de desenvolvimento criaram um mercado cada vez mais forte, focado na profissionalização. Pipocam agora cursos de formação – inclusive de formatação de projetos, essencial para os editais mas especialmente para a venda direta para canais, nesse novo momento do mercado que se construiu –, raros quando, apenas seis anos atrás, eu comecei como roteirista na área.

Em 2009 fiz como trabalho de conclusão de curso um documentário sobre a qualidade da televisão, em que diversos entrevistados do audiovisual falavam sobre o declínio da TV. Em um mundo em que tudo são telas, e tudo pode ser acessado ao prazer do usuário, antigos conceitos de qualidade caem e as audiências não conseguem se sustentar. Uma audiência fidelizada aos milhares vale mais que uma audiência morna aos milhões. Não é preciso mais atingir todos os públicos, de classe A a D, em todas as regiões, com uma programação única e pasteurizada. Mais que isso: tem-se acesso à produção de todo o mundo, e não apenas de um país. Nos últimos anos temos visto as emissoras públicas, serviços de streaming e TVs a cabo em desespero por conteúdos diferentes, de diferentes países e regiões, com diferentes sotaques, representando diferentes realidades, com um olhar jovem, que ouse em estrutura, em estética, em conteúdo. Conteúdo passa a ser a palavra-chave da nova era, e o meio, qualquer tela à sua disposição.

No ano passado, fui contemplada por diferentes linhas de editais do Fundo Setorial do Audiovisual, que também inverte a lógica que vinha sendo usada até então e foca na qualidade e não só no currículo como ponto forte para a premiação. Desenvolvi uma série infantil de animação pensada especialmente a partir experiências de crianças do nosso país, com a esperança de que isso tenha ecos positivos no mercado internacional. E trabalho agora em uma série de drama que a partir do ano que vem será veiculada pelas emissoras públicas do país, representando doze personagens, convivendo com as injustiças e dificuldades da nossa realidade. Inseridos na nossa cultura.  O modelo de Fundo proposto pela Ancine deu sim espaço para os profissionais antigos do mercado, como a adesão de globais e grandes diretores às campanhas #nãodeixeoaudiovisualmorrer e #EuConsumoAudiovisualNoMeuCelular – reforçada pela grande mídia – mostrou. Mas abriu a oportunidade para os jovens brasileiros construírem histórias jovens, para brasileiros, e que o mercado internacional, como a TV desmoronando em seu antigo modelo de grade, está ávido por consumir.

Nessa semana, às vésperas do recolhimento anual da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), que é a principal fonte de recursos do FUNDO SETORIAL DO AUDIOVISUAL, o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel de celular e Pessoal (SindiTeleBrasil) que representa as empresas Claro, Oi, Telefonica/Vivo, Tim, dentre outras, obteve liminar na Justiça contra o pagamento da taxa. Não discordo que diante da alta taxa tributária o modelo possa ser repensado (a não se comentar a justificativa cara de pau das teles de que conteúdo audiovisual e telefonia, em pleno século XXI, não tem ligação). Mas que não seja rompido e atrase em muitos anos o que, finalmente, começa a se configurar como o mercado produtivo que deve ser, munindo-se da criatividade, irreverência e tradição artística do país.

Dos muitos textos que saíram na mídia sobre o assunto, me acalentou o peito ler a ponderação justa e equilibrada do cineasta Cacá Diegues em sua coluna “A cultura das teles”, n’O Globo de 21 de fevereiro: “Há sempre espaço para novos pactos, mas a forma de travar esse debate não pode ser a violência unilateral de uma ação judicial; é preciso que todos os interessados se sentem à mesa, para rediscutir o mecanismo. (…) Se a liminar for cassada, como deve ser justo que aconteça, o Fundo Setorial do Audiovisual terá, em 2016, R$ 1,135 bilhão da Condecine (bem menos que o total das isenções oferecidas à indústria automobilística que engarrafa e polui nossas ruas), para aplicar na produção de todas as tendências do audiovisual brasileiro, dos grandes sucessos populares, como ‘Loucas para casar’ e ‘Até que a sorte nos separe’, aos filmes com reconhecimento artístico, como os recentes ‘O menino e o mundo’, candidato ao Oscar deste ano, ou ‘Que horas ela volta?’, triunfo internacional premiado no Festival de Berlim. O audiovisual brasileiro poderá seguir reproduzindo com generosidade a diversidade do país, a respeitar o gosto do público e dar apoio aos que desejam mudá-lo.”

O Fundo Setorial do Audiovisual, como se estruturou, acaba com uma característica nociva do audiovisual brasileiro, controlado pela estética de novelas, que reproduz um ponto de vista único e uma única cultura (frequentemente transformando em paródia sotaques, fisionomias e características de outros locais). Um único modo de fazer que, cá entre nós, nem a TV tradicional aguenta mais. Com foco em descentralizar a produção, a Ancine, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual, está tornando possível que os diversos Brasis com os quais não convivemos deem suas caras, em um mercado que não só precisava crescer, mas precisava se profissionalizar. Nos últimos anos, com o incentivo do FSA, o mimimi de não temos roteiristas no mercado deu lugar à demanda de todos os profissionais da área, e mostramos que, com o investimento certo, nosso audiovisual pode voar.

*** Conheça mais sobre essa história toda e apoie a causa assinando a petição no link: NÃO DEIXE O AUDIOVISUAL MORRER ***

ComKids Inovação, ser e fazer na produção (audiovisual) para a infância

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Estive ontem no seminário ComKids, iniciativa para articular agentes de mídia em torno da produção para crianças, que nessa edição teve como tema a inovação. Tema amplo, que pode percorrer diversos caminhos, ainda mais no que diz respeito às iniciativas para a infância e adolescência. E tão vastos e abrangentes quanto o tema foram os painéis: com convidados internacionais e de diversas partes do país, de diferentes formações e áreas, de audiovisual, de música, de ilustração e de tecnologia. Da Argentina ao Cariri, o dia abriu e fechou com a mesma intenção, se desdobrando ao longo das falas em múltiplas possibilidades.

Com a diversidade da composição de painéis, o evento dava pinceladas do que quer que possa ser esse tema. E tal como a inovação, aos poucos, inesperada e espantosamente, foi-se tecendo uma delicada teia de relações ― e delicada não porque é frágil, mas porque é profunda.

A abertura emocionante foi por conta de Chiqui Gonzalez, preocupada com o entendimento do espanhol, que a tradição porteña do drama veio suprimir, em uma comunicação direta com a emoção. Ministra de Inovação e Cultura de Santa Fé, falou sobre sua experiência com políticas públicas para a infância, e contou sobre os parques públicos projetados para receber adultos e crianças de todas as classes sociais, incentivando a criação, a brincadeira e a imaginação sem regras, horários ou obrigações. Falando sobre o protagonismo, demonstrou-o em sua própria fala, dando voz a crianças em inúmeras citações. “Vivir es solo querer a los demás. Vivir es saber que uno está queriendo a otro.”

Hélio Ziskind, apresentando sua criação musical (entre elas a música do ratinho do Rá-tim-bum) como um ponto intermediário de encontro entre artista e receptor, vida adulta e infância, definiu a criação para crianças: “como nós somos naquele momento em que a gente percebe que não sabe uma coisa”. Ao mesmo tempo em que negava as projeções de mercado, apresentava sua metodologia e processo com base na experimentação, na percepção e estágio congnitivo das crianças. “Criança a gente precisa pegar pela mão e conduzir”. Fala que conversava  com Jan-Willem Bult, da Holanda, de outro painel – aliás, dessas pessoas maravilhosas, que sabem que “quanto mais se sente, mais se aprende”. Com seu projeto de canal de notícias para crianças, o Kids News Network (e o programa Wadada News), integra diversos continentes numa rede de correspondentes, e coloca as crianças não só como espectadores ou personagens, mas como agentes das notícias. Um jeito de contextualizar o mundo ― suas principais personalidades e acontecimentos ―, com uma linguagem especialmente voltada para eles.

Laura Teixeira, ilustradora e escritora, que não faz distinção entre a sua produção adulta e infantil (e nem deveria), trouxe os livros que escreveu quando era pequena ― entre eles o encantador “O casamento entre a cigarra e o cigarro”, que no original se chamava só “O casamento”, ideia imediatamente completada pelo desenho de uma cigarra triste e um cigarro aceso. Alemberg Quindins trouxe suas revistinhas escritas e ilustradas à mão, para mostrar o quanto as crianças já criam, mais do que a gente se lembra e pode imaginar, em uma palestra de aplaudir em pé. Literalmente.

Quindins mantém o projeto Fundação Casa Grande, que praticamente se fez por si só, quando as crianças da cidade de Nova Olinda passaram a ser diretoras e gerentes das diversas áreas do que era então só um museu, dedicado às imagens paleontológicas e ao homem Kariri. Cada diretor passou a ter seus assistentes, também crianças, convocados e liderados por eles próprios. Hoje a casa integra uma diversidade de atividades com rádio, design, audiovisual e música, tudo coordenado e protagonizado por crianças. Que tinha, quase 12 horas depois do início do evento, tudo a ver com a palestra de abertura de Chiqui.

Ao longo do dia, ouvimos criadores falarem sobre suas plataformas colaborativas, aplicativos, sobre educação e sobre mercado, sobre a criação audiovisual a partir das necessidades do artista, das crianças e do canal, cada um com uma ideia de abordagem e condução. De diferentes formas, com diferentes visões da infância, fala após fala, os convidados compuseram um mosaico: é preciso criar ambientes, ou é preciso abaixar para olhar no olho da criança, ou é preciso conduzi-la pela mão. Em lugar de trazer soluções tecnológicas (como a onda do transmídia que sacudiu o mercado alguns anos atrás), os palestrantes trouxeram, ao contrário, o que é mais humano para a reflexão.

Alguém recém-chegada na área perguntou o óbvio: “mas como fazer bons produtos para a infância?” Particularmente, não acho que a questão seja do fazer, mas sim do ser (aliás, para qualquer produção). O público quer sentir, seja criança, adulto ou o que for. E nesse sentido é muito mais fácil produzir para crianças que para adultos, porque as crianças não tem ainda uma série de entraves e limitações que vamos criando para viver em sociedade. E que eventos como esse nos ajudam a ver. Como disse Chiqui sobre os parques de Rosário e Santa Fé, ao final de sua apresentação: “Parques feitos ao modo das crianças, para que os adultos se lembrem de que são humanos.”

Garcia, o farmacêutico

Cheguei à farmácia, sem escova de dentes nem pasta. Deixei na casa de um amigo, antes de sair do Rio – a escova mandei jogar fora, a pasta dei de presente.

“Oh, minha querida, você está boa?”, era o homem de jaleco. Não tive tempo nem de responder “tudo bem”. “A sua família, tá todo mundo bem?”

― Acho que o senhor me confundiu com alguém!
― Confundi nada! Você não estuda aqui?
― Não, nunca nem estudei. To vindo é morar aqui mesmo. Vim ver casa aqui no bairro…

Nessa hora ele gritou pro cliente ao lado: “Ô João! Em que que a gente pode ajudar essa moça aqui? Ela tá procurando casa pra alugar!”
O João se aproximou e falou que claro, a do Márcio Luz. O farmacêutico de jaleco puxou debaixo do balcão um livrão imenso com os nomes dos clientes. “Márcio Luz, Márcio Luz…”. Aqui, anota aí.
Anotei.

― Em que mais eu posso te ajudar?
― Escova e pasta de dente.

Fez um embrulhozinho mais caprichado do mundo.

― Em que mais?
― Só isso mesmo.

Saiu de trás do balcão, pegou minha mão entre as suas, em um movimento rápido de cumprimento.

― Eu sou Garcia, o farmacêutico.

Disse assim com essa pausa da vírgula. Depois me olhou bem nos olhos e profetizou:
― Que ocê seje muito feliz!

Sorte revés

Funcionalismo público é uma dessas coisas imprevisíveis, e por mais que nos organizemos nunca sabemos se o dia em que precisamos de um serviço vai ser de sorte ou revés.

Acordei antes das sete, para estar no Ministério do Trabalho logo cedo, pegar minha senha, ser atendida antes das enormes filas se formarem, e esperar o prazo de 25 dias para receber o meu DRT. Cheguei às 5 pras 8, cinco minutos antes do atendimento abrir. Uma senhora simpática me recebeu: “já fez o agendamento?” Ixi, agendamento… tem que agendar? É por telefone? Era ao vivo – menos mal, não perdi a viagem. Sorte. Não tinha pro dia seguinte, no outro eu viajava e na outra semana não estaria em São Paulo. Revés.

Sugeri que marcasse na segunda-feira seguinte e a mulher respondeu em negativa “longe assim [uma semana depois] a gente não marca”. Devo ter feito uma cara muito triste, porque ela olhou para um lado e para o outro, puxou um papel e me escreveu um número de telefone sem nenhuma indicação. Depois disse olhando fundo nos meus olhos: “esse número é desse telefone aqui (chegou a pegar o telefone no balcão), liga mais pra frente, que a agenda vai estar aberta”. Saí, 5 minutos e 8 reais de estacionamento depois.

Segunda parada: Biblioteca Nacional, procedimento padrão de registro de roteiro: cópia simples de RG, CPF, comprovante de residência (pode ser até de 2010 que eles não ligam), ficha de inscrição assinada,  roteiro com páginas numeradas e rubricadas, tudo em pasta de duas perfurações modelo arquivo. Por anos funcionou na Biblioteca Nacional uma pequena máfia das pastas arquivo: “xiii, você não trouxe na pasta perfurada? Vendemos aqui, por três reais.” Me contaram lá mesmo que não precisa mais dela ― espero ansiosa pelo dia que não precisarei mais, a cada roteiro, entregar impresso RG, CPF e comprovante de residência, que já devem lotar, lá em Brasília, salas e salas de documentação.

Aprendi com o tempo a chegar lá com tudo pronto, entregar, receber um carimbo e sair com o protocolo em cinco minutos, triunfante (inclusive aprendi o portão onde não tem usuários de craque ― a Funarte fica no meio da antiga cracolândia, na Santa Cecília). Sorte. Mas faltava ainda pagar a Guia de Recolhimento da União na boca do caixa e o Banco do Brasil estava em greve. Revés.

Foi assim que conheci Maria Lúcia. O Banco do Brasil estava cheio de senhores e senhoras que pediam, um a um, a uma única atendente enlouquecida que os ensinasse a usar o caixa eletrônico ― o que até então não haviam precisado. A própria Maria Lúcia nunca tinha registrado a senha do seu cartão. Ela puxou assunto, e eu só precisava de alguém com cartão do Banco do Brasil pra pagar a minha GRU. Sorte.

“Pagar sua conta? Claro que eu pago, só pergunta pra moça ali se tudo bem e eu pago, tudo bem.” A “moça ali” era a única atendente enlouquecida, que se descabelava entre as reivindicações. Passei por duas ou três senhoras, que insistiam em ajuda para usar o caixa, e a atendente confirmou que tudo bem. Pagamos. Entreguei 20 reais (o valor do registro) na mão da dona Maria Lúcia, disse que ela salvou o meu dia, desejei a ela um bom dia e saí.

Desci até a Biblioteca Nacional, entreguei toda a documentação e já me preparava para sair triunfante quando a funcionária me avisa: o comprovante de pagamento veio sem a autenticação. Por algum motivo (a esse ponto eu ainda não sabia), o pagamento saiu agendado para o dia seguinte. Se estava agendado, não contava como pagamento, e se não contava como pagamento não podia registrar.

Nesse ponto eu ― que afinal tinha acordado antes das seis da manhã, e todos esses trâmites depois já eram quase 11 ― estava a ponto de me descabelar como a atendente do Banco do Brasil. A funcionária continuava: se não estava pago, eu tinha uma alternativa muito clara: olhar na minha conta porque o pagamento não caiu, esperar cair e levar a autenticação. Tirando que a conta não era minha, e eu não tinha mais nenhuma forma de entrar em contato com a dona Maria Lúcia (além de saber o nome completo dela pelo papel). A segunda alternativa era pagar de novo, o que já seria uma tarefa terrível em dias normais (não queiram ter que enfrentar a fila da boca do caixa do Banco do Brasil) e era impossível por causa da greve. Eu teria que convencer outra pessoa simpática a pagar pra mim, com o risco de sair novamente sem a autenticação.

Apelei para a lógica ― se o pagamento estava agendado, significava que no dia seguinte ele seria pago. A conta geral da União ia receber os 20 reais do registro, quer quiséssemos quer não. Concordaram, todas as moças atrás do balcão. Mas nada podiam fazer ― sem o número de autenticação, não vai. É que o funcionalismo público não funciona com lógica, funciona com regras. E a regra é o número de autenticação ― continuávamos a discussão minutos depois, todos do mesmo lado e todos sem saber o que fazer. Já estavam me indicando qual agência estaria supostamente aberta apesar da greve – ainda seria um ônibus, metrô, ida e volta, e sem garantias.

Lembrei da confirmação da moça do banco: mas foi a moça do banco quem falou! Ah, foi a moça quem falou? Uma perguntava de cá, e outra respondia dali: foi a moça quem falou! Vou tentar falar com a moça! Tenta falar com a moça! As funcionárias me incentivavam, e saí de lá com uma falsa esperança que a cada passo mais perto do banco me trazia mais clara a noção de que ia acabar tendo, novamente, e dessa vez com a atendente descabelada, a mesma conversa de que não havia nada a fazer.

Uma ladeira depois, a mesma entrada do  Banco do Brasil, coisa de 30 minutos depois que saí, repensando as coisas erradas por que meu dia passou. Olho ao longe e vejo que a atendente mudou. Revés.

― Você voltou?
Quem perguntou foi a dona Maria Lúcia, ainda parada no mesmo caixa com a sua conta na mão.

― Dona Maria Lúcia! Deu tudo errado! A senhora nem sabe! Ainda bem que a senhora está aqui!

Dona Maria Lúcia só ria, e me explicou que a nova atendente tinha falado um monte na cabeça dela, que não se deve pagar conta pra qualquer um, e como que ela pagava assim, sem nem saber quem era, porque era, e etc. e tal. E eu tirando a conta da mochila, pra apresentar pra dona Maria Lúcia e pra nova atendente ― essa não descabelada e ainda bem disposta.

A atendente entregou a senha e sorriu ao me ver: “Você deu a maior sorte, ela está há 30 minutos aqui no Banco, o procedimento dela deu errado. Se tivesse dado certo ela teria saído 5 minutos atrás”. Expliquei a situação. Cancelou o primeiro pagamento – tinha sido agendado por uma falha minha, e minha mania de não saber que dia é hoje. Refez a transação: “depois dessa não dá mais pra cancelar, hein?”

A máquina imprimiu, dessa vez com a autenticação. “Dona Maria Lúcia! Se eu ganhar esse edital e conseguir fazer meu filme a senhora vai pros agradecimentos!”

“Essa eu vou cobrar hein? Com juros!” Ela sorria do lado de lá. Atrás de nós, a atendente que teria um longo dia pela frente ainda sorriu: “nossa, com uma declaração assim – boa sorte”.

As funcionárias da Biblioteca Nacional não acreditaram quando me viram voltar (elas também, como eu, não esperavam), e contar a história da dona Maria Lúcia que, por azar, ainda não tinha completado sua operação.

Linha São Paulo – Mariana

Linha São Paulo-Mariana. “O senhor vai pra Mariana mesmo?” “Não, não, eu vou descer em Entre Rios.” Olha só, eu também.
Senti de imediato que era uma pessoa extraordinária pra se estar sentada ao lado, no ônibus onde todo mundo parece só querer dormir.

O senhor era de São Sebastião do Gil, um distrito de Desterro. O irmão ia lá em Entre Rios buscar. Era a festa de 90 anos de idade do irmão mais velho.
São muitos irmãos? “Eram, eram muitos, agora são nove vivos.”
(nove vivos!)

Foi pra São Paulo com 15 anos pra estudar, um outro irmão é padre e já vivia lá. Começou trabalhando numa gráfica ligada ao seminário. Contei que meu namorado é de Entre Rios, estava indo visitar a família dele.
“E você vem ATÉ Entre Rios só pra namorar?”
(eu ia só pontuando assim, pra ele continuar me contando mais histórias. Não sei se eram muitas ou se ele inventava – mas sabia que a viagem ia ser boa). Contou por exemplo do alemão fugitivo da segunda guerra, que quando ele era pequeno morava no arraial. Porque São Sebastião do Gil, disse ele, é tudo um arraial.

Mesmo pai e mesma mãe. Eram 19 filhos, a mais velha teria 92, o mais novo: 60, que é ele. O mais velho vivo (esse de 90) vai fazer uma festa que vai reunir todos os irmãos.

Dele tem três: o mais velho morou na Alemanha e estudou energia nuclear, tem 31. O do meio não fez faculdade, só técnico. Tem 29 e só que saber de “balada, balada, balada”.

A esposa não pôde vir na festa porque acabou de nascer um netinho. Ele falava assim mesmo: “a esposa”. Do filho mais novo, de 19 – “Hoje em dia tem isso de ficar, né? Mas ele estava namorando, faz um ano já que a menina vai lá em casa.”

Depois repetiu: “noooooossa, e você veio namorar um rapaz aqui da região?
Eu também tive uma namorada assim, que era do Paraná. Eram 800 km entre uma cidade e outra. E eu trabalhava e ela vinha me ver.” Eu pontuei: que coisa! Mas ele riu: “É verdade!… Esse ano a gente faz 31 anos de casados.”

Obrigada, Antonio Prata

Quando estava no segundo colegial, fui a um debate do Serra na minha escola − o Colégio Bandeirantes, cheia de panfletos dizendo que escola não era lugar para partidarismos. Um dos diretores me puxou pelo braço, disse que eu não podia estar ali (o que era mentira, o evento era aberto e me receberam com sorrisos e adesivos do candidato antes de verem os panfletos) e que tinha ligado pessoalmente para o diretor-presidente marcando uma reunião comigo. Saí arrasada, comecei a chorar no corredor. Fui levada a uma sala, com a presença de dois funcionários do departamento “cultural”, onde desabafei entre soluços que ia ser melhor assim, que poderia então falar tudo o que pensava para o diretor-presidente − antes de perceber que o outro diretor não tinha anotado meu nome, turma, nada! E que obviamente a reunião era fictícia.

Fiz contatos mais próximos e marquei eu mesma a reunião, à qual compareci com os panfletos debaixo do braço, e fui recebida com os panfletos já na mesa pelo diretor-presidente e pelo diretor pedagógico (que bom, vi que já receberam…). Tivemos uma conversa séria e objetiva. Falaram sobre as minhas notas (já tinham puxado meu histórico, que sempre foi impecável), comentaram amigavelmente minhas notas baixas em matemática e pudemos rir sobre como eu não entendo álgebra. Expus que a violência à qual eu fui submetida seria aceitável vinda de uma pessoa ignorante, mas nunca de um dos diretores da escola – único momento da reunião inteira em que o sorriso saiu da cara dos dois.

A justificativa para eu ter sido tirada de lá? (lembro até hoje das palavras, exatas, vindas do mesmo diretor): a minha segurança.

Tenho uma relação muito amigável com os funcionários e professores de lá, e alguma admiração pelo formato das aulas, embora tenha muitas ressalvas sobre o sistema de ensino. Mas sempre fui categórica em que não quero meus filhos lá, para espanto da maioria dos meus amigos. O meu ideal de escola é uma que aplauda atitudes tão maravilhosas como um grupo de alunos que se solidariza com a causa de um, e não uma que isole essa atitude.

Deixar ou não o aluno ir de saia não tem a ver com a escola deixar, no dia a dia, cada aluno vestir a roupa que quer. Aliás, tem pouco ou nada a ver com roupas. Isso tem a ver com uma escola que acha que tem que limitar os alunos, porque “o mundo é assim”.

Tudo isso pra dizer: obrigada, Antonio Prata. (“Entre ou saia”/ Folha de S. Paulo).

O susto do susto da Virada – seguimos tentando

Fiquei assustada com o susto das pessoas em relação à Virada Cultural desse ano. Estive no evento, não vi nada de anormal. Soube de gente que viu o arrastão e desistiu do domingo, diz que foi tenso. Mas soube de gente, muita gente, que não foi pro Centro pra não ser assaltado. Como se ir pro centro significasse necessariamente sofrer algum tipo de assédio. Minha mãe completou: e como se fora da Virada a gente não corresse o risco igual.

Sou defensora da Virada uma vez por ano (ao contrário dos que pedem que a verba seja diluída pelo ano todo), e sou defensora do evento concentrado no Centro. Gosto da ideia de muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, da indecisão deliciosa de um ou outro show (nesse ano um melhor que o outro). Gosto da ideia de encontrar, em um mesmo lugar, gente de todo tipo: quem vai pro funk batidão, quem vai pro rock, quem dança forró. Gente de todo o Brasil vindo pra ver gente de todo Brasil tocar em homenagem à cidade. E o mais bonito de tudo: ocupando o Centro. Ocupar São Paulo, o que nos dias normais não podemos ― justamente por insegurança.

Acho que a Virada, com o passar dos anos, virou o nosso carnaval. De rua. Mas São Paulo ainda tem muito o que aprender em relação a eventos de rua ― quanto mais aos grandes eventos de rua. Esse ano não vi nada de anormal, mas evitei a madrugada. Nos outros anos reparei que o clima cai muito, a energia que devia ser pros shows fica em tomar porre e cair pela sarjeta e o clima geral é baixo astral. Ano passado ― ou foi no retrasado? ―, particularmente, ao andar pelo centro de madrugada senti total insegurança, que nesse ano tentei evitar.

Podíamos tomar como exemplo a segurança do carnaval de Salvador (também concentrado), onde cada bloco e cada show tem um estande de policiais supervisionando a multidão. É preciso foco especialmente no caminho entre os palcos ― e guardas montadas entre os palcos e junto aos palcos. Só que lá eles tem 60 anos de trio pra sacar como fazer a segurança… O que não podemos é jogar no lixo o evento mais bonito que nos foi oferecido. “Não vou porque é inseguro. Vou pro Sesc…” e a cidade volta a ser ocupada pelo que não lhe representa.

No domingo, presenciamos um momento imperdível que foi a homenagem a Paulo Vanzolini (não à toa um ícone da cidade) que nos deixou há 20 dias. Sem tom de tristeza ou lamento, o clima foi de homenagem e celebração, como a Virada como um todo deve ser. São 4 milhões de pessoas. Assaltos, duas mortes, mas quatro milhões de pessoas. Não é pouco, e nem a virada pode ser resumida aos assaltos e mortes. Se fosse pra sair na rua pra ser assaltada, também eu não sairia ― a Virada foi, e é, muito mais.

Mais interpretações sobre o assunto: Quando a apuração tendenciosa é evidente | Valter Hugo Muniz
Do site oficial da Virada Cultural 2013: Virada 2013: os problemas & as soluções | Pedro Alexandre Sanches

Diário do Rio

Dia número 36: aeroporto Santos Dumont fechado devido a questões meteorológicas. Primeiro dia de chuva e névoa, primeiro dia que resolvo voltar a São Paulo de avião.

Conheci muita gente nas filas, até o aeroporto reabrir, às 16h. Depois mais quatro horas de espera até entrar em algum voo. Conheci uma senhora gaúcha, de Juiz de Fora e de mudança pra Mogi das Cruzes. De voz doce e paciente, me contou que era catequista, mas depois virou evangelizadora espírita (ela deve ser boa, porque no geral não gosto de ninguém que fale pros outros de deus – mas dela eu gostei de ouvir).

Cinco aeronaves em pista, a primeira foi pra Brasília, a segunda pra Vitória, as outras três chamavam em ordem os passageiros remanescentes dos voos pra São Paulo. 3901 e 3903 (das 6 da manhã), depois os das 9h, 10h, 11h… (o meu era das 17h15). A cada vaga livre, quem não tivesse bagagem despachada podia tentar entrar. Olhei meu voo: 3945 (tinha todos os números ímpares desde o 3901 antes pra serem chamados).

A segunda aeronave saiu do portão 7 (estávamos no 2). Saímos todos correndo, as malas de rodinha deslizando no chão – parecia corrida maluca e só faltava rasteira. Não entrei. O próximo sairia do portão 2, e o seguinte do 10 (lá embaixo). Voltei. A senhora me olhou – ela era do 3929 – “você vai no mesmo voo que o meu”. Olhei de novo pro bilhete: 3945.

Segui pro portão 10, onde fiz amizade com vários meninos do voo 3935. Criamos um grupo pra exigir que chamassem pela ordem dos voos (o que no fim nem me favorecia). Não entrei (não entramos). Voo 3905, 3911, 3919 e 3923 (vira e mexe chegava alguém perguntando – é no portão 10, lá embaixo!). Pausa. Nova diretriz: sem aeronaves na pista, os voos não tem previsão de horário – e toda vez que ouvir um anúncio da Tam, pode se dirigir ao portão para tentar embarcar.

Voo 3929, portão 8. Vi a senhora passar ao longe. À minha frente, os meninos do 3935, com a certeza de que nesse eles iam. O líder do grupo foi conversar com o funcionário para chamar os voos em ordem (tinha gente do 3953 que ia entrar na frente, não fosse isso).

Entraram todos do 3929 (e a essa hora, ao contrário dos voos da manhã, era muita gente que tinha esperado pra ver). Depois chamaram: 3931. 3931! Passageiros do 3931 SEM BAGAGEM! Os meninos apreensivos. 3933! Alguém lá atrás gritou “3933, aqui!”, abre espaço na multidão pra pessoa passar. Mais dois ou três. Nova chamada. 3935! Entraram todos os meninos, enquanto eu me agarrava à passagem. 3937! Mais alguns. 3939! Mais.

Os passageiros do 395… faziam tumulto.

Repetiu todos os números: 3939, 3937 e todos os anteriores! Mais alguém?

Os passageiros do 50 e poucos gritavam que não. Mais um ou outro se aproximava do portão com as passagens em mãos.

3941!

Olhei a passagem: “o meu é 3945” – então vai lá pra frente que daqui a pouco vai ser o seu, a mulher me disse e me empurrou um pouco mais à frente. Fiquei na cara da porta de vidro. Mas muita gente já tinha entrado. Volta o comissário pro avião pra contagem.

3943! Entraram mais dois. Silêncio, o funcionário de terra olhava para trás.

“Eu sou 3945”. “3945 não.” 3943, alguém? Mais espera.

3945!

Uhuuu! E o funcionário me disse sem nenhuma empolgação: “é, uhu, vai lá.”

Entrei correndo, mas o avião ainda ia ficar parado mais um tempo por lá.

A senhora, já sentada, me olhou em cheio: “eu disse que você vinha no mesmo voo que eu”. Atrás dela, os meninos do 3935 comemoraram que eu entrei.

À direita, a outra senhora que tinha medo (mas não de avião, da vida), me cumprimentou, antes de eu sentar junto a um engenheiro do Recife que mora há 15 anos no Rio e volta todo fim de semana pra lá pra encontrar a mulher e os filhos. Ele parecia o Stepan Nercessian, mas isso eu só reparei quando o avião pousava em São Paulo, e eu descia chorando de lá.

diário completo em: http://lauriebarile.tumblr.com/