16 de October Osso duro de roer
“E aí, Laura, gostou?” Tudo o que pude oferecer foi uma sobrancelha arqueada, e um silêncio que trazia em si toda a brutalidade absorvida durante uma hora e meia de filme. “Não sei”. Era pré-estréia (nunca houve uma pré-estréia em que tantos já tivessem assistido a um filme). A sala estava lotada de intelectuais com óculos de acetato e ávidos por fazer parte de um grupo seleto, que não pensa que o capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, é um herói.
Como em um primeiro momento um sem número de críticos acusaram o diretor de fascista por promover a violência através do personagem-narrador de seu filme, um segundo momento lógico (após a defesa de José Padilha) é considerar o filme preciso em sua crítica, e achar que o herói violento está na sociedade. Não deixa de estar. No entanto é essencial que pensemos o quanto o filme - apesar de suas boas intenções em chocar a platéia e sugerir um esgotamento do modelo que trata a violência com mais violência -, acaba por (entendendo-se “acaba por” em seu duplo sentido) reforçar aquilo que é mais forte em nossa cultura: a idéia de que “bandido é pra matar”.
Depois de “Ônibus 174″, um emocionante documentário que coloca em primeiro plano a vida do seqüestrador de um ônibus no Rio de Janeiro (já escrevi sobre o filme aqui no blog), o diretor José Padilha resolveu novamente inovar. Fazer um filme em que o protagonista fosse, ao invés do traficante (como as mais recentes películas retratam o tema), o policial de um grupo de operações especiais, treinado para matá-lo.
A idéia (exposta pelo diretor ao final da exibição), era mostrar como para o policial-narrador o modelo “tratar a violência com mais violência” se esvaziou de sentido quando da chegada de seu filho (fator externo). A crítica, no entanto, não fica clara.
É evidente, pela narrativa, que ele não cria um herói (deixemos de lado essa análise preto no branco: ou é mocinho ou é bandido). O Capitão Nascimento tem em si diversas contradições, e as ações violentas de suas tropas encontram comportamentos análogos na ação de bandidos. Mas então por que o grande público não aclama os traficantes? Não critica o policial?
A crítica do momento, e com a qual concordo perfeitamente (mas acho que não é suficiente para explicar tudo), é que a sociedade traz em si essa violência repressora. Traz. E aí chego onde queria: a crítica do filme não consegue ser efusiva o suficiente para dar o salto da reflexão. Após escancarar aos olhos da sociedade sua maior contradição (como persistir em um modelo em que se destrói a violência com ações violentas?) e saturá-la com cenas de desmedida brutalidade, o filme falha ao deixar no ar a conclusão a ser tomada. Aos olhos da população, policial matar bandido está certo, e o filme termina por reafirmar aquilo que era exatamente sua maior crítica.
Além disso, o longa eleva o dedo na cara do espectador em outros inúmeros trechos, entre os bem explicados, os que se perdem e os apenas mencionados. Um exemplo é a passagem do papa pela favela (motivo inicial para as operações da “tropa de elite” por aquela região), uma crítica pouquíssimo explorada, que fica abandonada em meio à narrativa. A corrupção entre os policiais militares já é abordada de outra maneira. Apesar narrados de forma leve (de fácil assimilação), seus comportamentos são suficientemente detalhados de maneira a gerar revolta naqueles que assistem ao esquema. Até o final da história, no entanto (o filme é curto porém extremamente denso), a crítica, tão precisa, se torna longínqua, e se perde.
O que, sem dúvida, fica mais forte, é a contradição da classe média (e de alguma forma toda a sociedade), que pensa que não tem responsabilidade sobre o mundo da criminalidade. Isso fica claro nas personagens da Universidade, que desenvolvem trabalho social na favela ao mesmo tempo em que, para isso, têm que manter relações amigáveis com os traficantes (além de serem intermediadoras do tráfico para a elite). O que é evidenciado é um mundo em que a violência é financiada e acobertada por aqueles que têm mais oportunidades e que, ironicamente (ou chocantemente!) são os que tentam remediar o vão existente em relação aos moradores da favela. É a “responsabilidade social”.
Não acho que tudo deva ser explicado em seus pormenores. A sensação que fica ao final é que deve ser bem transmitida (sendo as críticas explícitas e bem detalhadas ou não). E a essas críticas todas, efusivas ou apenas mencionadas, não é dado um sentido único, amarrando-as ao final do filme (embora todas se relacionem, evidentemente, ao mesmo universo temático). Sinto que as pessoas têm a tendência de gostar só porque é forte. Não acho. O filme não me trouxe o essencial: a indignação transformadora.