Osso duro de roer

“E aí, Laura, gostou?” Tudo o que pude oferecer foi uma sobrancelha arqueada, e um silêncio que trazia em si toda a brutalidade absorvida durante uma hora e meia de filme. “Não sei”. Era pré-estréia (nunca houve uma pré-estréia em que tantos já tivessem assistido a um filme). A sala estava lotada de intelectuais com óculos de acetato e ávidos por fazer parte de um grupo seleto, que não pensa que o capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, é um herói.

Como em um primeiro momento um sem número de críticos acusaram o diretor de fascista por promover a violência através do personagem-narrador de seu filme, um segundo momento lógico (após a defesa de José Padilha) é considerar o filme preciso em sua crítica, e achar que o herói violento está na sociedade. Não deixa de estar. No entanto é essencial que pensemos o quanto o filme - apesar de suas boas intenções em chocar a platéia e sugerir um esgotamento do modelo que trata a violência com mais violência -, acaba por (entendendo-se “acaba por” em seu duplo sentido) reforçar aquilo que é mais forte em nossa cultura: a idéia de que “bandido é pra matar”.

Depois de “Ônibus 174″, um emocionante documentário que coloca em primeiro plano a vida do seqüestrador de um ônibus no Rio de Janeiro (já escrevi sobre o filme aqui no blog), o diretor José Padilha resolveu novamente inovar. Fazer um filme em que o protagonista fosse, ao invés do traficante (como as mais recentes películas retratam o tema), o policial de um grupo de operações especiais, treinado para matá-lo.

A idéia (exposta pelo diretor ao final da exibição), era mostrar como para o policial-narrador o modelo “tratar a violência com mais violência” se esvaziou de sentido quando da chegada de seu filho (fator externo). A crítica, no entanto, não fica clara.

É evidente, pela narrativa, que ele não cria um herói (deixemos de lado essa análise preto no branco: ou é mocinho ou é bandido). O Capitão Nascimento tem em si diversas contradições, e as ações violentas de suas tropas encontram comportamentos análogos na ação de bandidos. Mas então por que o grande público não aclama os traficantes? Não critica o policial?

A crítica do momento, e com a qual concordo perfeitamente (mas acho que não é suficiente para explicar tudo), é que a sociedade traz em si essa violência repressora. Traz. E aí chego onde queria: a crítica do filme não consegue ser efusiva o suficiente para dar o salto da reflexão. Após escancarar aos olhos da sociedade sua maior contradição (como persistir em um modelo em que se destrói a violência com ações violentas?) e saturá-la com cenas de desmedida brutalidade, o filme falha ao deixar no ar a conclusão a ser tomada. Aos olhos da população, policial matar bandido está certo, e o filme termina por reafirmar aquilo que era exatamente sua maior crítica.

Além disso, o longa eleva o dedo na cara do espectador em outros inúmeros trechos, entre os bem explicados, os que se perdem e os apenas mencionados. Um exemplo é a passagem do papa pela favela (motivo inicial para as operações da “tropa de elite” por aquela região), uma crítica pouquíssimo explorada, que fica abandonada em meio à narrativa. A corrupção entre os policiais militares já é abordada de outra maneira. Apesar narrados de forma leve (de fácil assimilação), seus comportamentos são suficientemente detalhados de maneira a gerar revolta naqueles que assistem ao esquema. Até o final da história, no entanto (o filme é curto porém extremamente denso), a crítica, tão precisa, se torna longínqua, e se perde.

O que, sem dúvida, fica mais forte, é a contradição da classe média (e de alguma forma toda a sociedade), que pensa que não tem responsabilidade sobre o mundo da criminalidade. Isso fica claro nas personagens da Universidade, que desenvolvem trabalho social na favela ao mesmo tempo em que, para isso, têm que manter relações amigáveis com os traficantes (além de serem intermediadoras do tráfico para a elite). O que é evidenciado é um mundo em que a violência é financiada e acobertada por aqueles que têm mais oportunidades e que, ironicamente (ou chocantemente!) são os que tentam remediar o vão existente em relação aos moradores da favela. É a “responsabilidade social”.

Não acho que tudo deva ser explicado em seus pormenores. A sensação que fica ao final é que deve ser bem transmitida (sendo as críticas explícitas e bem detalhadas ou não). E a essas críticas todas, efusivas ou apenas mencionadas, não é dado um sentido único, amarrando-as ao final do filme (embora todas se relacionem, evidentemente, ao mesmo universo temático). Sinto que as pessoas têm a tendência de gostar só porque é forte. Não acho. O filme não me trouxe o essencial: a indignação transformadora.

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No cinema, nossa sociedade

Recife
Morre homem baleado em sessão de Tropa de Elite
Publicado em 16.10.2007, às 00h08

De JC OnLine Pernambuco - http://jc.uol.com.br/2007/10/16/not_151883.php

Com informações de Cidades/JC
Atualizado pela última vez: 8h23

Morreu às 23h15, no Hospital da Restauração, no Recife, o agente penitenciário Ivson Correia de Oliveira Santos, 39 anos, atingido por um por um tiro na tarde desta segunda-feira (15), durante sessão do filme Tropa de Elite, no Multiplex UCI Ribeiro Tacaruna. De acordo com testemunhas que estavam no local durante o ocorrido, a confusão começou logo após o fim do filme, quando se ouviu o barulho de tiro.

O agente recebeu os primeiros socorros no local pelo Serviço Móvel de Urgência (Samu) e depois levado para o Hospital da Restauração (HR), onde foi submetido a uma cirurgia. Ivson morreu devido a lesões no coração, diafragma, pulmão, fígado, estômago e coluna. Familiares do agente estiveram no HR mas não quiseram conversar com a imprensa.

Logo após o tiro, a polícia foi acionada pelos funcionários do centro de compras e chegaram ao local dez minutos após a chamada, às 19h. O agente da Rádio Patrulha Elias Leite foi enfático ao descartar a possibilidade de assalto. Segundo Leite, a polícia trabalha com três linhas de investigação: tentativa de suicídio, tentativa de assassinato e tiro acidental.

De acordo com fontes extra-oficiais ouvidas pelo Blog de Jamildo, a hipótese de suicídio é bastante plausível, uma vez que ele estava sendo investigado por corrupção. O agente trabalhava em Igarassu e agora estava lotado no Cotel. Saiu de Igarassu para o Cotel justamente porque estava sofrendo investigação interna.

TUMULTO - a sessão em que ocorreu o incidente começou às 17h15, na sala 6, que estava lotada. O tiro foi ouvido segundos depois da última cena do filme (que na verdade é um estampido de tiro). Em nota oficial, a UCI Ribeiro Tacaruna informou que prestou atendimento imediato em conjunto com a segurança e paramédicos e que não houve feridos além do agente penitenciário.

Ivson Santos era primo da prefeita de Olinda, Luciana Santos. Ela esteve na noite de ontem (15) no Hospital da Restauração, junto com outros parentes. Ele trabalhava como agente penitenciário há seis anos e há dois meses dava plantão no Centro de Triagem de Abreu e Lima(Cotel).

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Vida global

Uma coisa que sempre me incomodou muito nas novelas - e que em certa parte deve ser responsável por eu não assisti-las - é sua organização temática. Fulana tem aids, e, de repente, todos os núcleos de ação (conhecendo-a ou não) apresentam reflexões sobre isso em seu dia-a-dia. Se a filha da ricaça usa drogas, todos são envolvidos. Se o assunto do momento é criminalidade, não há um que não tenha uma opinião sobre o assunto… Pois qual não foi meu assombro quando percebi, nos últimos tempos, que todos os núcleos de ação que participam direta ou indiretamente da minha vida revelavam momentos de extrema proximidade temática (e nada de temas “da atualidade”, questões pessoais mesmo). Talvez sejam mesmo as “Páginas da Vida”…

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