No último semestre, por uma disciplina da faculdade (introdução ao jornalismo II), foi-me dada a tarefa de produzir três matérias: de política, de cultura e livre (que poderia ser jornalismo investigativo, científico, esportivo, etc.) Num súbito fervor bairrista, decidi fazer das três matérias fotografias de meu bairro, um tradicional reduto de São Paulo, que cresceu por suas atividades industriais e comerciais, e agora parece se renovar, mas sem nunca perder esse seu ar “provinciano”, como bem traduziu uma das entrevistadas. Não tenham dúvidas “Mooca é Mooca”.
Abaixo vai o resultado: as matérias produzidas por aqui. Quem reparar atentamente notará algo que só descobri depois de elas prontas, a primeira matéria (sobre o conselho gestor) menciona o tema da segunda (amo a mooca), que por sua vez menciona o tema da terceira (Juventus).
Reforma faz-se urgente ao poder público
Hospital municipal da Mooca tem melhorias graças a parcerias com a população
Por Laura Barile
Quem passar na frente do hospital municipal Ignácio Proença de Gouvea, localizado na Mooca, zona leste de São Paulo, certamente notará a placa “Desculpe-nos pelo transtorno”. Os usuários agradecem. No mês de setembro uma verba de 1 milhão e 300 mil reais foi liberada para reformas emergenciais no hospital. Homologada há dois anos, foi graças à ação do Conselho Gestor do Hospital, que ela conseguiu ser liberada.
Em vigor desde junho de 2006, o Conselho tem mostrado resultados para a região. “Todo mês nós temos reuniões para ver quais os problemas, desde físicos até administrativos, que acontecem dentro do hospital”, explica Norberto Martins, taxista do ponto em frente ao hospital e membro do Conselho Gestor. Morador do bairro há 40 anos, ele concorreu nas eleições por sua grande participação no bairro. “Eu comecei a participar por um convite quando foi criada a eleição para o Conselho Gestor desse hospital. Vieram me convidar, porque eu já faço parte da associação AMoAMooca (Associação dos Moradores e Amigos da Mooca), que é do bairro”.
Formado por uma tripartite: comunidade, funcionários e administração do hospital, com subdivisões hierárquicas (presidente do conselho, conselheiros titulares e secretário), o Conselho parece dar conta de todas as questões do hospital. Falta equipamentos? Atendimento ao cliente? UTI? Tudo é anotado e encaminhado à administração. Além do bem comum do hospital, o Conselho Gestor também serve para atender às questões de cada segmento específico. Os funcionários reivindicam boas condições de trabalho e equipamentos, já a comunidade (tanto moradores quanto usuários), exigem prioritariamente bom atendimento. “Minhas funções são levar ao conselho tudo que possa vir a ser resolvido, tanto em questões de verbas, quanto outras coisas, por exemplo, parte de manutenção de equipamentos, limpeza, informação ao usuário, tudo o que venha a contribuir para que o usuário e também toda a comunidade do hospital sejam bem atendidas”, explica Martins, que é membro pela comunidade.
E tudo isso dá certo porque o Conselho reflete as demandas imediatas dos que convivem diariamente com a realidade do local. Apesar de não dispensar o contato e a parceria com o poder público e nem negaria suas origens , essa iniciativa demonstra o quanto ações localizadas podem melhorar o nível dos serviços oferecidos à população. “Hoje todas as instituições estão optando por parcerias, porque a prefeitura não pode arcar com tudo sozinha. O orçamento está muito apertado, então não dá para atender todo mundo suficientemente na saúde”, enfatiza Norberto Martins, embora não deixe de lembrar “claro, com todo o apoio da prefeitura, da secretaria da saúde, e aí o povo só tem a ganhar.”
Nova vida à Mooca
Associação formada por moradores do bairro pretende dar um gás novo para a região
Por Laura Barile
Quem achava que a Mooca acabou com o fim de seu uso industrial, engana-se. Desde 2001, a Associação dos Moradores e Amigos da Mooca (AMoAMooca) tem lutado para preservar o patrimônio histórico do bairro, e trazer mais cultura para seus moradores.
A iniciativa surgiu de moradores do bairro, alarmados com a deterioração resultante da evasão das indústrias e do comércio da Mooca. O bairro estava há décadas esquecido. A avenida que tinha sido um ponto ilustre aqui da Mooca acabou se deteriorando pelo tempo e todas as indústrias que aqui batalhavam acabaram fechando as suas portas e indo embora, conta Zina Dianocaro, ou dona Zina, como é conhecida no bairro, que foi convidada a ser presidente da associação, cargo em que acaba de ser reeleita. Essa associação começou com dois moradores, Sonia e Pedro, conversando, formando posições, tomando iniciativas, tendo idéias para uma revitalização do bairro, explica.
Quem transitar pala Mooca notará de imediato a incrível quantidade de antigos galpões, sem uso, na região. A idéia da associação é restaurá-los, e devolvê-los com alguma destinação para o bairro. Um exemplo é o novo hipermercado, Extra Mooca, construído onde antes operava o cotonifício Crespi, um marco para o bairro (e cujos empregados deram origem ao Clube Atlético Juventus, outro xodó dos moradores). Foi graças a uma reivindicação da associação que o hipermercado restaurou a fachada do cotonifício, mantendo-a em sua forma original. O Cristo, que ficava no pátio de entrada, para que o operário pudesse fazer suas orações, e a comunidade, que passava pelo portão, pudesse deixar flores e se benzer, agora ganhou uma capela, sob responsabilidade da AMoAMooca.
Também é resultado do trabalho da Associação a mais nova escultura instalada no bairro. Hastes vermelhas, colocadas na confluência de importantes ruas e avenidas do bairro - Avenida Paes de Barros, rua da Mooca e rua do Oratório -, que, quando sob sol, projetam a letra ême na pracinha em que se encontram - conhecida como Praça Vermelha. O projeto, que integrou comemorações dos 450 anos do bairro, é do arquiteto Renato Fregnani, contratado especialmente para esse trabalho.
Os esforços maiores da associação, porém, encontram-se na área da cultura. A idéia maior é conseguir reaproveitar esses espaços ociosos, transformando-os em espaços culturais para a comunidade. Realmente, a grande preocupação da nossa entidade é preservar isso para que nós tenhamos equipamentos culturais com uma freqüência maior, porque o bairro é carente, confirma Zina Dianocaro. Segundo a presidente, seu único teatro, o Arthur de Azevedo, é motivo de orgulho, mas a vida cultural do bairro não pode se resumir a isso. Nós precisamos de um museu, de salas de cinema, nós precisamos olhar com muito carinho os nossos carentes, a nossa terceira idade, e a gente tem buscado isso em prol de toda essa extensão do bairro, completa. É por isso que na rua Javari (n.o 403) funciona o centro cultural da associação, onde ocorrem ensaios do coral, aulas de artesanato, de artes plásticas, cursos do Sebrae, tudo aberto à comunidade e sem cobrança alguma. E quando a gente precisa para reuniões extras ou para alguma exposição, a gente abre o espaço para o que houver necessidade, explica dona Zina.
É com a valorização do bairro por seus próprios moradores que a Mooca não se deteriorou em cinzas de seu passado industrial. Ao ser questionada sobre o sentimento de orgulho que move os moradores do bairro, com um sorriso no rosto, dona Zina respondeu Esse orgulho é uma coisa peculiar do mooquense, é realmente aquele bairro que, apesar de todo progresso que atingiu, não deixou de ser provinciano.
Os sustos do moleque travesso
De volta à primeira divisão, o Juventus da Mooca mostra-se apoiado por uma torcida ávida por vitórias
Por Laura Barile
O primeiro time de poucos, o segundo de muitos. É com essa cara que o Juventus tem sido visto, mas não é só de torcedores esporádicos que se faz o time. Querido pelos mooquenses desde sua fundação, ele conta com uma fiel torcida organizada, preparada para as derrotas, e, principalmente, fervorosa para as vitórias.
A Jujovem conta com aproximadamente 100 membros, e se não é pelo tamanho, faz-se grande pela animação. Fundada em 1981, a torcida, que em setembro comemorou 25 anos de sua existência, não tem medo de enfrentar as grandes torcidas dos times tradicionais do país.
Depois de uma campanha decepcionante no Campeonato Brasileiro, o Juventus volta a enfrentar times grandes no Paulistão 2007, campeonato para o qual se classificou depois de uma belíssima trajetória que o levou a vencer a série A2 e garantir sua vaga na primeira divisão. Já para janeiro está previsto um jogo contra o Corinthians, time que já levou alguns sustos do Juventus. Segundo Sergio Mangiullo, conhecido como Serginho, presidente e um dos fundadores da torcida organizada, A expectativa é boa, é grande, porque o gostoso nosso mesmo é contra o Corinthians. Contra o Corinthians, o Palmeiras, o São Paulo, de quem nós ganhamos no Paulista e que foi o campeão brasileiro.
É exatamente daí que vem o apelido do clube, moleque travesso, por causa dos sustos que costuma dar em times grandes. Na Javari, por incrível que pareça, a gente joga mal, e contra os grandes a gente cresce, se torna o moleque travesso, explica Mangiullo, que é torcedor fanático do time desde os 5 anos de idade. Para ele, as péssimas campanhas em outros campeonatos indicam a necessidade de contratações, por parte do presidente do clube, Armando Raucci. Ele vai ter que ter um bom senso para fazer contratações, se não a gente cai. Mas não desanima quanto às próximas partidas A tradição é de ganhar, tem que ganhar, é moleque travesso. Nada em que os moradores da Mooca e os dispostos torcedores do Juventus não acreditem, e Serginho completa, com um orgulho bairrista peculiar da região: Mooca é Mooca.