O buraco é mais embaixo

Pintura sobre obras modernistas evidencia discordância entre grafiteiros e Prefeitura

Por Laura Barile

Há cerca de um mês, quem passava pela junção da Av. Dr. Arnaldo com a Av. Paulista, local popularmente conhecido como “buraco da Paulista”, se chocou com um protesto. Cal e corante cobriam os “Modernistas na Paulista”, 2.200 metros quadrados de reprodução de obras de Di Cavalcanti, Portinari, Tarsila do Amaral, entre outros, que integravam projeto da ONG Revolucionarte, em parceria com a Prefeitura. O que pode ter parecido uma atitude drástica ou descabida tem suas raízes, porém, em um longo desacordo entre Prefeitura e grafiteiros da cidade.

Reduto do grafite desde a década de 80, o “buraco da Paulista” era um espaço de ocupação auto-organizada da arte de rua, onde os artistas se manifestavam espontaneamente, renovando esporadicamente os trabalhos expostos. Ao utilizar o espaço para concretizar o projeto “Modernistas na Paulista”, no ano de 2004, a partir de um discurso questionável de incentivo ao grafite, com base na profissionalização dos artistas e na proteção do espaço contra “depredações”, a Prefeitura demonstrou absoluto desinteresse pela história e trajetória dessa forma de arte.

A repressão ao grafite teve seu ápice com Jânio Quadros e desde então a arte de rua tem convivido com inimigos no governo. A atual gestão parece interessada nesse tema, tendo criado um fórum e alguns projetos de ocupação artística da cidade. O site da Coordenadoria da Juventude (órgão público responsável pela questão do grafite) confirma o crescimento da demanda de jovens artistas por espaços para pintar. De acordo com eles, a indústria mercadológica aberta para esses desenhos e a profissionalização dos artistas fez com que o movimento deixasse de ser encarado como contravenção. “Essa idéia de contracultura, grafite como protesto, não se aplica bem. Grafite é arte. É arte de rua.”, confirma a assessoria de imprensa da Coordenadoria da Juventude.

O problema é que, apesar dos avançados discursos, a questão está longe de ir às mil maravilhas. Os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como Osgemeos, grafitam há mais de uma década e já tiveram exposições em diversos países. “”Eles [a Prefeitura] não diferenciam pichação de grafite, pra eles é tudo a mesma coisa””, afirma Gustavo. “”Essa campanha contra grafite, ‘vamos apagar, vamos limpar a cidade’, nunca teve, a primeira vez que aconteceu foi agora.””, completa.

Para eles, o erro da Prefeitura foi utilizar um espaço que há duas décadas era ocupado pelos grafiteiros para fazer um trabalho de releitura. “”O Brasil inteiro tem milhões de artistas bons, que poderiam ter colocado o trabalho deles lá, o trabalho que o cara criou durante a vida dele, com o estilo dele, autêntico””, afirma Gustavo. A Prefeitura, entretanto, optou por pintar obras consagradas com a técnica do grafite. O projeto, ao contrário da valorização da arte que é pretendida, traz em si a idéia de que a arte de rua de São Paulo, por si só, não merece exposição.

O indispensável, agora, é que a Prefeitura respeite a história e os avanços por que tem passado a arte de rua na cidade. “”Agora é a hora de a gente mostrar que a escola do grafite aqui é diferente. O mundo olha o grafite que é feito em São Paulo e respeita””, afirmam Osgemeos. Os artistas, que recentemente tiveram sua primeira exposição em São Paulo – na galeria Fortes Vilaça –, afirmam que o espaço para o grafite tem crescido no Brasil. “”Hoje em dia você pode ter expectativa, você pode acreditar que isso pode virar uma profissão””, mas enfatizam “”a gente não depende de prefeitura nenhuma para fazer o nosso trabalho”.”

Além disso, diante da institucionalização do grafite - – grande parte dos projetos são articulados por ONGs –- muitos grafiteiros ainda reclamam de ver sua arte “domesticada”. O artista plástico Rui Amaral, um dos pioneiros do grafite no Brasil, separa em duas vertentes essas diferentes visões. Para ele, a arte incentivada e que não tem em sua base o protesto não é grafite, e sim arte de rua. A arte do grafite está freqüentemente relacionada a mensagens de cidadania e à conscientização política. ““O grafite verdadeiro é aquele que você corre perigo, que você está abrindo espaço para expor. O grafite verdadeiro é ilegal””, completa.

Nesse ponto a questão torna-se paradoxal: se a Prefeitura aceitar as intervenções no buraco da Paulista, respeitando-o como espaço dos grafiteiros, o movimento deixa de manifestar seu caráter de ilegalidade. Para Rui Amaral uma possível saída seria a Prefeitura ceder um espaço para ser o “hall of fame” dos grafiteiros, um lugar para que se exponham os trabalhos, através da livre ocupação. Segundo o artista plástico, o planejamento prévio da ocupação, através da discussão dos projetos, também seria uma forma de evitar a poluição visual. “”Geralmente quando a gente faz o grafite tem vários estilos, vários traços. Através da conversa se organiza isso””. Quem sabe com a liberação de seu uso, não se poderia fazer do “buraco da Paulista” uma forma institucionalizada - porém não controlada - de manifestações, sejam elas de cunho político ou apenas artístico. Otávio Pandolfo confirma esse desejo, “”Acho que tinha que ser um espaço pra todo mundo pintar ali, como sempre foi”.”

Os modernistas, recobertos de cal, ainda esperam uma decisão. Sua exposição, com ou sem protesto, terminaria no final do mês de agosto, quando entraria em cena outro projeto social. Esse prazo, no entanto, não foi cumprido pela Prefeitura. Apesar de ter sido divulgado que o espaço seria devolvido aos grafiteiros, já foi anunciada a reocupação dos muros, em parceria com uma ONG, em projeto chamado “Olhar Nascente”. Segundo a Coordenadoria da Juventude, “ainda não há nada definido, o que está definido é que o espaço será ocupado por um mural, cujo tema é a imigração japonesa, mas ainda não há data definida para isso.” A prefeitura anuncia projetos sem previsão para implementá-los, os grafiteiros continuam descontentes e São Paulo convive ainda com o poluído protesto, uma chaga exposta da questão do grafite na cidade, que, certamente, está longe de se resolver.

Matéria publicada no ContraPonto - jornal laboratório do curso de jornalismo da PUC-SP (ano 6 n.o 42 setembro 2006)

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