Os Livros

(só para mudar o estilo)

A sensação inexplicável mais deliciosa é perceber que passamos da página do meio de um livro. É um ponto em que não se pode mais desistir deles, e já se percebe aonde vai a história, e já se sabe o tom do livro. Ele é completamente seu, e ainda não deixou de sê-lo.

Depois disso, já vencido, já seu, passa a ser um fardo: não se quer mais ele, busca-se o final, a-p-e-n-a-s o final. Ele, porém, te persegue. Agarra-te pelas pernas, GRITA! (si-len-cio-samente). E obedientemente passamos a lê-lo compulsivamente crescentemente, até a decepção ou o maravilhamento. Do fim.

Filed under: Crônica — Laura

Uma viagem

ônibus não é mais meio de transporte, é medida de tempo.

Ônibus é o tempo de uma reflexão.

Filed under: Crônica — Laura

AFP

Asfalto derretido devido ao calor em Lyon, na França

http://noticias.uol.com.br/ultnot/album/060723_album.jhtm

Depois dessa, nenhuma outra foto jamais precisa ser tirada. Incrível como ficou enquadrado da ponta do tênis à ponta do cotovelo da mulher.

Filed under: Meus posts — Laura

As musas de Chico Buarque através dos tempos (Revista Tpm)

Reportagem bem sucinta, superficial, sem muito a acrescentar às fãs, mas de escrita - e tema - apaixonante. Incrível como se conseguiu traduzir todo o pensamento, todo o sentimento das fãs do Chico. Sim, nós amamos a Marieta Severo!

Só me deixou um gostinho de - ei, quero mais análises! no final. Ainda assim, se chegar a ser jornalista (caso não consiga me enveredar pelo caminho de “ela faz cinema”), quero trabalhar na Trip*.

(e abaixo o lide! Os entraves, o jornalismo chato de barreiras e discussões de mídia!)

* embora ainda conheça pouco das revistas.

Filed under: Meus posts — Laura

Foca aparece em praia no Rio e é batizada de Zidane (Folha online)

A Foca

Vinicius de Moraes, em A Arca de Noé

Quer ver a Foca

Ficar feliz?

É pôr uma bola

No seu nariz.

Quer ver a Foca

Bater palminha?

É dar a ela

Uma sardinha.

Quer ver a Foca

Fazer uma briga?

É espetar ela

Bem na barriga!

Filed under: Meus posts — Laura

“ele não usou a cabeça…”

Ao contrário. O erro do Zidane foi usar a cabeça (e o que será que disseram pra ele…).

http://copa.esporte.uol.com.br/copa/2006/ultnot/franca/2006/07/10/ult3646u258.jhtm

Agora me digam como um jogador que faz isso - um golpe digno de gangues de rua e que rendeu ao Galvão Bueno a oportunidade de proferir sua primeira (talvez única) frase exata sobre algo: “uma cena horrorosa” - pode ser eleito melhor da Copa? Certo, fez um campeonato lindíssimo (deu um chapéu no Fenômeno!), porém que se faz do espírito esportivo?

Já no final do jogo os comentaristas - do SporTV, porque depois o Galvão começou a irritar - já tentavam apaziguar a situação “o Zidane jogar bonito nos jogos foi uma coisa, isso que ele fez agora é totalmente outra. Temos que pensar nelas como coisas separadas, e se ele for eleito o melhor da Copa não tem nada a ver com isso” - ok, foi algo assim. Que exemplo se dá, elegendo um jogador assim o melhor? Um ato de tamanha brutalidade não condiz com o título, ainda que sejam considerados os gols e as belas jogadas que o craque fez. O Juca Kfouri disse em seu blog que isso só demonstra que, apesar de o resultado ter sido divulgado após o final do torneio, a votação certamente se deu antes desse jogo.

Filed under: Meus posts — Laura

Jabor

“esta Seleção não foi a pátria de chuteiras; foram as chuteiras… sem pátria.”

Arnaldo Jabor

(as reticências são minhas, tentando chegar à beleza com que ele leu o trecho ontem no Jornal da Globo - ou qualquer que seja o nome daquele jornal que passa bem tarde)

Deveriam inventar toda uma pontuação nova para o Jabor, pois não há pontuação que chegue à entonação que ele dá aos textos. E é a entonação que faz os textos dele bons.

Não passei da metade da primeira página da primeira crônica do “Amor é Prosa, Sexo é Poesia”. Minha irmã, que bravamente chegou a seu fim, disse que é ruim e eu acreditei. Mas ele lendo… pode ser o pensamento mais descabido do mundo, parecerá genial. Deveriam vender suas crônicas em fita.

Ó aí… que faço na faculdade de jornalismo se gosto do Jabor?

Abaixo vai uma versão um pouco diferente, e bem maior do que a lida na televisão - não sei se por questão de tempo ou veto - que é a única que encontrei.

Filed under: Crônica — Laura

As chuteiras sem pátria

Arnaldo Jabor

Quando chega um fax com barulhinho de cornetas celestiais, eu já sei: é carta do Nelson Rodrigues. Não deu outra. Nelson me pedia para publicar um texto sobre a Copa, já que está sem contato nas redações: “Eu sou do tempo do Pompeu de Souza, do Prudente de Morais Neto… Não conheço esses meninos da redação…” Muito bem, aqui vai seu comentário sobre o sábado da desgraça: “Amigos, a derrota é um grande momento de verdade. Só diante da vergonha é que entendemos nossa miséria. Num primeiro momento, queremos encontrar uma explicação para o fracasso, mas fracasso não se improvisa - é uma obra calculada, caprichada durante meses, anos até. Não adianta berrar no botequim que o Parreira é uma besta ou que o Ronaldo é um gordo perna-de-pau. Não. Nosso fracasso começou antes, porque esta Seleção não foi a pátria de chuteiras; foram as chuteiras sem pátria.

“Para nossos jogadores ricos e famosos, o Brasil é a vaga lembrança da infância pobre, humilhada. O País virou um passado para os plásticos negões falando alemão, francês, inglês, todos de brinco e com louras vertiginosas. Não são maus meninos, ingratos, não; mas neles está ausente a fome nacional, a ânsia dos vira-latas querendo a salvação. O povo todo estava de chuteiras, para esquecer os mensalões e os crimes, mas nossos craques não perderam quase nada com a derrota; tiveram apenas um mau momento entre milhões de dólares e chuteiras douradas pela Nike.

“Isto me faz lembrar o grande Neném Prancha do Botafogo: ‘Temos de ir na bola como num prato de comida!…’ Que frase profunda, esquecida hoje… Nosso time come bem e nem os jogadores, nem os técnicos, nem os roupeiros e massagistas viram o óbvio, ali, uivando, ululando nos vestiários: o time estava sem conjunto, os jogadores estavam presos a um esquema tático que contrariava suas vocações. Só o povo berrava: ‘Ronaldo está gordo, Ronaldinho tem de atuar mais livre, os jovens têm de jogar mais!’ E, quanto mais o óbvio se repetia, mais Parreira se obstinava em sua lívida teimosia… Por quê? Porque o técnico é sempre contra a opinião geral. Em vez de orientar as vocações dos rapazes, ensinando-lhes a liberdade, a coragem e o improviso, Parreira achou que todos têm de caber em sua estratégia. O pior cego é o surdo. E jogador brasileiro não gosta de lei nem de planejamentos; quer inventar sozinho. O técnico devia ser um reles treinador, quase um roupeiro, humilde diante dos craques. Mas Parreira parecia um Mussolini de capacete e penacho. Teve vários sinais de tirania: só dava a escalação no vestiário, com os jogadores desamparados, na insônia da dúvida da convocação, não teve coragem de barrar as estrelas, como se isso fosse uma afronta ao passado e às multinacionais. Ronaldo fez gols, tudo bem, mas foi uma âncora pesada desde o início, em torno do qual os problemas giraram. Parreira ficou com medo dos jovens, e eu via em seus rostos o desespero do banco. Robinho arfava de rancor e só entrava quando era tarde demais. Robinho foi o único que chorou no final, ainda menino e puro. Quem teve a mãe seqüestrada sabe o que é tragédia. E, para escândalo do País, Robinho ficou de castigo. Ao final de tudo, Parreira disse a frase suicida: ‘Não estávamos preparados para perder!…’ Isso é a morte súbita, isso é a guilhotina. Sem medo, ninguém ganha. Só o pavor ancestral cria uma tropa de javalis profissionais para a revanche, só o pânico nos faz rezar e vencer, só Deus explica as vitórias esmagadoras, pois nenhum time vence sem a medalhinha no pescoço e sem ave-marias. Mas Parreira ignorou a divindade e acreditou em si mesmo, com a torva vaidade de uma prima-dona gagá, com pelancas e varizes.

“Isso é o óbvio, mas foi ignorado. E quando o óbvio é desprezado, ficamos expostos ao sobrenatural, ao mistério do destino. Por exemplo, por que começamos o jogo como um corpo de bailarinos eufóricos e, 15 minutos depois, ficamos paralíticos como sapos diante de cascavéis, com o Zidane dando chapéus até no Ronaldo? Será que diante da Marselhesa sofremos um pavor reverencial? Em 1998, Ronaldo caiu em convulsões de cachorro atropelado no vestiário. E agora? Creio que no sábado não estávamos com medo da França, não; o que tivemos foi medo de nós mesmos, voltou-nos o complexo de vira-latas, inibidos como vassalos diante do Luís 14, de sapato alto e peruca empoada. Foi assim em 1998 e agora. A França é muito chic para filhos de Capão Redondo e de Bento Ribeiro.

“Mas todos sabem que quem ganha e perde as partidas é a alma. E a nossa estava dividida entre o match e a linha de passe, entre o show e a vitória. Houve o episódio da meia de Roberto Carlos, que, um segundo antes do gol da França, estava ajeitando a liga como uma madame Pompadour. Pelé notou o descuido frívolo e trágico, pois guerreiro furioso não conserta a roupa na batalha. Esse pequeno gesto revelou bastidores de equívocos fatais, teorias e teimosias.

“Outra coisa que nos matou foi a torcida. Nunca houve uma torcida tão desesperada por uns minutos de paraíso, de brilho. Foi diferente de 1950. Lá, sonhávamos com um futuro para o País. Agora, tentávamos limpar nosso presente. Explico: há um ano, somos uma nação de humilhados e ofendidos, debaixo da chuva de mentiras políticas, violência e crimes sem punição. Descobrimos que o País é dominado por ladrões de galinha, por batedores de carteira e pelos traficantes. Por isso, a população queria que o scratch fizesse tudo que Lula não fez. Mas era peso demais para os rapazes. A dez mil quilômetros, os jogadores ouviam os gemidos ansiosos das multidões de verde e amarelo, como uma asma patriótica. Não esperávamos uma vitória, mas uma salvação. Só a taça aplacaria nossa impotência diante da zona brasileira, a Seleção era nossa única chance de felicidade. Queríamos a taça para berrar ao mundo e a nós mesmos: ‘Viram? Nós, brasileiros, somos maravilhosos!’

“Mas não deu. E só”.

Filed under: Meus posts — Laura

Um olhar português

Não são todos os que tem a chance de ser mencionados por aqueles que admiram.

Dia 30 de junho me surpreende minha mãe com duas notícias: a primeira que fui citada no blog da Helena, e a segunda que a Helena tem um blog.

Ela tem uma escrita genialmente deliciosa. Certa vez enviou-me por e-mail um resumo do livro “A Farsa de Inês Pereira”. Li-o com um gosto que jamais imaginaria (a julgar o quanto odiei o começo do livro). Ainda o guardo em uma gaveta, e o leio, fascinada, quando reviro os papéis, em alguma arrumação.

Tá, tá, já sei, melhor mesmo é lerem o blog 2 Dedos de Conversa e vão entender o que estou dizendo.

Filed under: Meus posts — Laura