Há mais ou menos um mês, quando o espírito natalino apenas começava a contagiar as pessoas e, mais importante, quando o estresse das compras não as havia dominado, assistia eu à apresentação dos papais noéis do shopping Paulista.

São alguns bonecos muito bem feitos - que piscam e mexem a boca -, dispostos ao longo da árvore ao centro do shopping, que contam como surgiu a tradição natalina e a figura do papai Noel em cada lugar do mundo. Ao final da apresentação, uma música melódica se sobressai em relação aos discursos e, um a um, eles dizem como é chamado o bom velhinho em muitos lugares do mundo, com a finalização, em uma voz grave e acolhedora: foi muito bom estar aqui com vocês no shopping Paulista e, é claro, tenham todos um feliz Natal! ho ho ho - após o que novamente aumenta-se o volume da música.

Olhei ao meu redor: à minha direita, um pai, tomando-a em seus braços, desejou feliz Natal a sua filha, à minha esquerda, um casal entregou-se a um beijo. E eu, acalentada pela declaração do papai Noel e tomada arrebatadoramente pelo sentimentalismo da música, pensei: é isso que é o “espírito de Natal”.

Filed under: Crônica — Laura

Mais uma vez em um ônibus

Estava um velho carrancudo e muito feio, pois tinha algum tipo de doença de pele no rosto, sentado, quando entra uma menina pequena e estridente. Para ela era uma diversão segurar a barra e esforçar-se por permanecer de pé enquanto o ônibus chacoalhava. Dava gargalhadinhas, dessas que parecem gravação.

O velho carrancudo olhou-a e abriu um simpático e sincero sorriso. Olhou-me, como a procurar alguém que também visse graça na estridência irritante da pequena menina.

Sorri de volta.

Filed under: Crônica — Laura

Chego a uma constatação sinestésica: ervilha tem gosto verde.

Pode parecer ilógico, aliás, é o comentário mais estranho que já me ocorreu, mas, uma vez pensado, me pareceu absolutamente sensato. Ervilha tem gosto de verde.

Só não sei porque ninguém mais concordou comigo…

Filed under: Meus posts — Laura

“Deixo a vida para entrar na história”

Essa tem sido a frase da minha vida, desde que, duas semanas atrás, abandonei minha vida social e cultural para estudar toda a história desde Roma e Grécia até os tempos atuais (e penso que nunca - nem em seu contexto original, na carta-suidício de Getúlio Vargas - tal frase foi usada com tamanha propriedade).

O blog está incluído na vida.

Filed under: Meus posts — Laura

O menininho

Helen E, Buckley

Era uma vez um menininho bastante pequeno que contrastava com a escola bastante grande. Quando o menininho descobriu que podia ir à sua sala caminhando pela porta da rua, ficou feliz. A escola não parecia tão grande quanto antes.

Uma manhã a professora disse:

- Hoje nós iremos fazer um desenho!

-Que bom! Pensou o menininho. Ele gostava de desenhar. Leões, tigres, galinhas, vacas, trens e barcos… Pegou sua caixa de lápis de cor e começou a desenhar.

A professora então disse:

- Esperem, ainda não é hora de começar! Ela esperou até que todos estivessem prontos e disse:

- Agora nós iremos desenhar flores.

O menininho começou a desenhar bonitas flores com seus lápis rosa, laranja e azul, quando escutou a professora dizer:

- Esperem! Vou mostrar como fazer! E a flor era vermelha com o caule verde. Assim, disse a professora. Agora vocês podem começar a desenhar.

O menininho olhou para a flor da professora, então olhou para a sua flor. Gostou mais da sua flor, mas não podia dizer isso… Virou o papel e desenhou uma flor igual a da professora. Era vermelha com o caule verde.

Num outro dia, quando o menininho estava em aula ao ar livre, a professora disse:

- Hoje nós iremos fazer alguma coisa com o barro.

Que bom! Pensou o menininho. Ele gostava de trabalhar com barro. Podia fazer com ele todos os tipos de coisas: elefantes, camundongos, carros e caminhões. Começou a juntar e amassar a sua bola de barro. Então a professora disse:

- Esperem! Não é hora de começar! Ela esperou até que todos estivessem prontos.

-Agora, disse a professora, nós iremos fazer um prato.

Que bom! Pensou o menininho. Ele gostava de fazer pratos de todas as formas e tamanhos. A professora disse:

- Esperem! Vou mostrar como se faz. Assim, agora vocês podem começar. E o prato era um prato fundo.

O menininho olhou para o prato da professora, olhou para o próprio prato e gostou mais do seu, mas ele não podia dizer isso. Amassou seu barro numa grande bola novamente e fez um prato fundo igual ao da professora.

E muito cedo o menininho aprendeu a esperar e a olhar e a fazer as coisa exatamente como a professora. E muito cedo ele não fazia mais coisas por si próprio.

Então, aconteceu que o menininho teve que mudar de escola. Esta escola era maior ainda que a primeira. Ele tinha que subir grandes escadas até a sua sala.

Um dia a professora disse:

- Hoje nós vamos fazer um desenho

Que bom! Pensou o menininho e esperou que a professora dissesse o que fazer. Ela não disse. Apenas andava pela sala. Quando veio até o menininho perguntou:

-Você não quer desenhar?

-Sim, o que nós vamos fazer?

-Eu não sei até que você o faça

- Como eu posso fazê-lo?

-Da maneira que você gostar

-E de que cor?

- Se todo mundo fizer o mesmo desenho e usar as mesmas cores, como eu posso saber qual é o desenho de cada um?

-Eu não sei! Respondeu por fim o menininho e começou a desenhar uma flor vermelha com o caule verde.

***

É um pouco como eu me sinto tendo terminado o colégio.

Filed under: Meus posts — Laura