Sempre que leio “cais” acho que se enganaram. Erraram, escreveram foneticamente, buscaram incorporar a oralidade.

Deveria ser “cás”, para que aí sim todos pudessem pronunciar seguros: “cais”.

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Em um dia de minhas férias, quando subia à biblioteca do Itaú Cultural para pesquisar alguns vídeos, vi algumas estruturas de metal se movimentando e resolvi parar. Pois não é que descobri uma exposição divertidíssima? (digo que sim).

Cinético Digital, no Itaú Cultural, é uma exposição de arte digital do Brasil que, na minha opinião, tem como fator mais interessante a interatividade em diversas obras.

Já no primeiro local onde fui me deparei com um tapete que, quando pisado, fazia surgir a imagem de um homem nu no chão. Outra coisa que eu adorei é uma seção sobre fome, na qual há bandejas para serem colocadas nos computadores da sala, que, além de perguntas sobre esse tema, mostram informações e vídeos com depoimentos sobre a fome. Isso entre muitas outras obras que se pode tocar, movimentar, escrever…

Vale conferir, vai até o dia 11 de setembro, no Itaú Cultural da Av. Paulista.

Há várias informações sobre a exposição no site: http://www.itaucultural.org.br

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Quando surge uma frase…

Retrato de minha queridíssima Tatu, com uma deformação que muito me lembrou os rostos de Picasso.

Já imaginaram como uma mosca veria um quadro cubista? Seria o cubismo ao cubo.

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Os exames, por favor!

Há algumas semanas um homem manco entrou no metrô, postou-se a meu lado e começou um discurso dizendo que tinha tido um derrame, descobrira que tinha AIDS, que estava passando fome e a roupa grudando nas feridas de seu corpo doía. Cada frase dele era dita com uma das sílabas aguda e em tom mais forte, tornando seu discurso agressivo.

Não ousei olhá-lo, não me mexia. E ele lá, atrás de mim. Reparei que tinha cabelos compridos (até os ombros), disse que quem quisesse poderia confirmar as informações nos exames que ele trazia dentro de uma pasta embaixo do braço. E tudo me parecia tão mentira. E aquele homem, atrás de mim, fazia com que eu me sentisse tão mal! A cada frase, a cada agudo, dando-me arrepios nas costas. Sentia-me mal e sentia-me culpada por isso. E por ter que duvidar do que ele dizia. Uma mulher, logo ali, à minha frente, deu-lhe dois reais (!). Outros contribuíram. Lógico que ninguém pedia para ver os exames. Eu torcia para que logo ele fosse embora e me indignava com a quantidade de dinheiro que ele recebia.

Hoje, estava no metrô quando entra um homem manco, de cabelos longos, com uma pasta embaixo do braço e começa o seu discurso. Me desloquei para mais longe, tentei ouvi-lo. Algo, algo, AIDS, algo, algo, fome, algo, para quem quiser confirmar o que eu disse, eu trouxe os exames, podem olhar. O mesmo homem. Talvez menos agressivo. Talvez fosse a distância. De novo inúmeras contribuições.

Para ser sincera ele me parecia muito melhor, não citou as feridas, não disse ter comido apenas uma bolacha desde o dia anterior (apesar de, sim, ter repetido “se eu pudesse apenas comer!”), e até arrumou o cabelo ao olhar-se no vidro da porta do metrô. Não olhava para ele mais com a sensação ruim. Já o conhecia, já sabia seus problemas. Aos poucos se acostuma com a violência, se acostuma com a miséria, se acostuma com a desgraça humana.

Cheguei então a uma conclusão entre triste e revoltante: não dão o dinheiro a ele, para a comida, para os tratamentos, não dão porque se penalizam. Livram-se do dinheiro por si mesmos. Aquele homem manco, com fome e que fala agudo aflora nas pessoas o sentimento de culpa, que as toma, dia após dia, aos poucos, diante das cenas caóticas (por não dizer assustadoras) da cidade. As pessoas, inconscientemente, buscam o alívio.

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Na porta, esperando por ser atendido, estava um homem normal, vestido normal, com sua mochilinha normal. Talvez anormalmente colorida para um adulto.

-É só você?

Era. Eu imaginara uma equipe, entre inspetores de vazamento de produtos químicos tóxicos e caça-fantasmas, com suas roupas brancas de borracha, grandes galochas, proteção para o rosto e canos nas mãos, conectados aos recipientes com veneno.

Afinal, como podemos confiar em um mundo onde os dedetizadores são pessoas normais?

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Re-ver

Re-escrever

Re-animar

Re-cuperar.

O que é cuperar?

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