Os alunos saem do colégio achando que, como as dissertações e parágrafos que têm que fazer, tudo na vida é padrão. E as coisas realmente são padrão. Deveria ter pensado nisso antes, afinal, o que é a escola senão uma grande reprodutora dos valores da sociedade? Ainda que sejam valores engessados. Ou de engessamento.
Na minha prova de inglês hoje caiu um texto (para resolução de alguns testes), que argumentava que é impossível que escola e criatividade andem juntos, partindo de uma frase de Einstein, que dizia que um cientista, por nunca ter ido à escola, tinha preservado o raro dom de pensar livremente, fato ao qual ele atribuia a criatividade do cientista. E o texto conseguiu, de forma absurda, usar isso para defender o modelo das escolas, dizendo que a frase é verdadeira, mas que a função da escola é civilizar, não formar exploradores, que seriam os criativos, que percebem o mundo de forma diferente e não seguindo padrões. Padrões esses que são, segundo o texto, responsáveis pela unidade e, portanto, bom funcionamento da sociedade.
Pois rebato: se na escola os alunos fossem ensinados a respeitar diferenças, chegando a consensos flexíveis e discutíveis de forma crítica, a unidade seria mantida, e a sociedade seria muito mais livre e criativa. Chamem-me de utópica, mas acho que não se devem confundir regras sociais gerais e respeito de diferenças, o que permite o “livre exercício da criatividade”. A questão central é: se a escola é uma mera reprodutora de valores da sociedade, então para o ensino mudar a sociedade tem que mudar. Mas a base para que a sociedade mude é o próprio ensino.
Outra falha revoltante é o fato de os alunos serem ensinados a escrever textos como se a tese passada fosse uma verdade ou uma opinião generalizada, e não a opinião do autor. Isso como é no jornalismo. E por dois motivos, o primeiro, persuadir o leitor. Fazê-lo de fato crer que o que está sendo passado é uma verdade, ou que, no mínimo, é o que todo mundo pensa. O segundo é que, na sociedade padrão em que vivemos, aquele que assume sozinho uma opinião crítica é mal visto. A não ser, é claro, que seja alguém muito importante para escrever “eu acho” e “na minha opinião” e ainda assinar a crítica com o próprio nome, como é o caso dos cronistas.
Os alunos deveriam escrever textos empregando verbos na primeira pessoa do singular e assumindo o “Eu”, ao mesmo tempo em que seriam ensinados a não menosprezar idéias que não fossem apresentadas como pertencentes ao senso comum. Isso talvez fosse útil para a despadronização, ao menos escrita, do nosso país.
Laura Barile.