… provas depois…
… pensamentos depois…
e chega de deixar tudo para depois!
Esses últimos tempos deixei de andar com meu bloquinho de anotações, estava anotando cada coisa em um lugar. Eram, como vocês podem imaginar, pensamentos sem volta. Um em uma apostila, outro em um caderno, um outro ainda em uma reportagem…
Decidi, de súbito, que retomaria todos os pensamentos de momentos, o da aula, o da rua, o que tive em casa mesmo. E vocês não imaginam o quanto as pessoas bisbilhotam o que se escreve em público. Era só lembrar de um assunto deixado para trás, lá ia eu, que fosse no ônibus, no metrô ou mesmo no meio da Paulista, escrevendo os tópicos e tentando de toda a forma lembrar onde este ou aquele pensamento estavam anotados. Me senti, devo dizer, extremamente invadida ao ter minhas anotações lidas por estranhos, eles viram, em primeira mão, parte da matéria-prima do blog.
Acho que o comentário mais antigo é o da novela Cabocla (nem sei se ainda é exibida), outro dia, por nada, resolvi assistir a alguma novela e estava passando essa tal Cabocla. Não sei a história, não me interessei por desvendá-la, via apenas por diversão, quando apareceu uma suposta espanhola em cena. Sotaques globais, sabem como é, o de Terra Nostra já foi muito críticado, mas não pude evitar a pontada em meu estômago quando ouvi a espanhola dizer “gente” com o som do “gê” brasileiro bem forte, muito menos quando ela, antes de sair, disse simpaticamente “licencia”. É permiso! Não licensa, muitissíssimo menos “licencia”.
Outra coisa que eu nunca mais comentei foi a peça “Os Sete Afluentes do Rio Ota”. Como já comentei, o tema central da peça é a violência atroz entre humanos, que é mostrada em sete capítulos bem distintos (sete é o mesmo número de afluentes do Rio Ota, no Japão, um dos locais afetados pela bomba de Hiroshima), cada um mostrando uma época diferente e sem em momento algum ser trágico ou martelar em assuntos batidos. Nossa, falar sobre a peça me faz querer ver ela mil vezes de novo! Infelizmente já acabou…
O palco era dividido em três partes, que mostravam cenas diferentes. Por mau planejamento, do lugar onde eu estava sentada não se via grande parte do meio e da ponta da direita do palco. Perdi um monte de cenas. Ah, algo interessante para se contar é que a peça durava cinco horas só com um intervalo e apesar disso nem me cansou.
A direção é de Monique Gardenberg e vou fazer comentários breves sobre os atores que estavam geniais na peça, e sobre os que estavam medíocres (estão pela ordem em que apareceram na peça: para eu não me perder estou seguindo o programa).
De geniais tinha a Maria Luisa Mendonça, que estava engraçadíssima quando interpretou a estressada dona da pensão e ótima também como criança, o Caco Ciocler, o Luis Carlos Prestes! Não que eu queira restringir a atuação e a imagem dele a um único papel, até porque não gostei muito dele em “Olga” e na peça ele estava ótimo, mas foi inevitável, apareceu muito bem na cena do suicídio assistido e na que precedia essa, Beth Goulart, foi genialíssima, principalmente quando interpretou Patricia Herbert, a dondoca arrogante, casada com o embaixador do Canadá (será que era do Canadá mesmo?) e Jiddu Pinheiro, que eu nunca tinha visto na vida e impressionou muito com uma atuação espetacular, o elenco da peça era definitivamente muito bom, Pierre Maltais também estava bem, principalmente na cena em que dançou em cima das pedrinhas, a que eu assisti do chão, já que do meu lugar não via nada, e fiquei morrendo de medo de levar uma pedrada acidental. Eu cheguei a falar do cenário genial? Qualquer coisa comento depois dos atores menos bons da peça.
Simone Spoladore, se não me lembro mal era uma das únicas atrizes que não estava muito bem, interpretou Ada Weber e, embora não chegasse a parecer falsa, não parecia comovida de verdade nas cenas mais dramáticas, nem convencia muito nas mais engraçadas, Helena Ignez não convenceu, na cena do suicídio assistido de Jeffrey O’Connor (Caco Ciocler) saiu chorando muito falsamente. Mas nada de desesperador, cito essas atrizes como “ruins” apenas pela comparação com o elenco impecável da peça, a bem da verdade, nenhuma era realmente ruim.
Nossa, já está ficando grande. Acho que já comentei sim que os aspectos técnicos, de produção, eram muito bons. Sem críticas sérias a essa peça, foi em tudo genial, menos na escolha do local de exibição, já que, para mim como para as outras pessoas que se encontravam no canto era impossível enxergar o palco da maneira como foi arrumado.
Esqueci de dizer, teve uma cena que deu até arrepio de tão boa. É o capítulo 5, “O Espelho”, em que o cenário era feito com duas caixas grandes que dependendo da iluminação eram vidros ou espelhos, dessa maneira, Jana Capek (Helena Ignez), ficou de um lado do espelho, em Hiroshima 1986, e, ao olhá-lo, viu-se pequena (Maria Luisa Mendonça), junto a outras pessoas, em Terezin, 1943 (campo Nazista para onde eram enviados membros da elite cultural européia, antes de serem mandados para o extermínio). Os atores que estavam no campo representavam atrás das enormes caixas, e ela observava tudo postada na frente das caixas, como se lembrasse de sua infância trágica. O mais legal é que nem aparece nada muito típico de campos de concentração, algo que é sempre explorado pela arte. Nesse campo os judeus organizavam-se para dar palestras dos mais variados assuntos (no final do programa tem essa explicação e a listagem verdadeira de palestras que ocorreram lá), enquanto não chegava a hora de serem levados à morte. A cena que eu considero mais linda da peça é a hora que os atores passam andando com suas malas pelo palco, entrando por um lado e saindo por outro, incessantemente, e começam a acelerar o passo, enquanto a menina (Maria Luisa Mendonça) corre em desespero à procura de alguém que eu não me lembro quem é, grita, e os atores continuam seguindo seu caminho, cada vez mais rápido, a música perfeita, perturbadora, a menina gritando, e os atores apertam o passo até que começam a correr, seguindo o ritmo da música e ignorando o choro da garota, que contra a corrente corre também. Triste eu não lembrar o que faziam as pessoas, por que corriam ou quem a menina procurava, acho que era a mulher que tratava-a como filha, e que havia se matado algum tempo antes.
Gente, é isso, se for comentar mais coisas no mesmo post das duas uma, ou o blog estoura ou ninguém mais nunca entra para ler realmente alguma coisa.