[Dia vinte e nove de janeiro de 2004, aproximadamente 8:30 da manhã.]
[Mãe] Laura, acorda, um passarinho entrou na sala, pega a máquina, rápido!
[Laura ainda meio dormindo] Pega você.
Minha mãe voltou para o quarto…
[Laura] Na mochila.
…me deu a mochila e saiu novamente.
Peguei a mochila, encontrei a máquina, fui até a sala.
[Laura dirigindo-se para Pai] Toma, tira.
[Pai] Tira você, a máquina é sua…
[Laura] Eu to sem óculos e com sono, tira.
Ele começou a tirar as fotos. Ainda me arrependi de não ter ligado para o passarinho e fui buscar meus óculos, afinal, não é todo dia que um passarinho entra em sua sala. Olhei para ele: uma gracinha! Não tinha pescoço, cabeça e bico. Era como se tudo isso fosse uma bolinha só, sem divisão. Estava pousado no topo da cortina.
Fui saindo da sala, ainda olhei para trás e disse
[Laura] Cuidado para ele não fazer cocô.
E voltei a dormir.
Pouco tempo depois, começam a me chamar
[Pai e Mãe] Laura, Laura, ele bateu no vidro. Não sei se desmaiou ou morreu.
“Ele desmaiou”, pensei, mas continuei dormindo. Não me culpem, não tinha ânimo algum para levantar e ir ver o que tinha acontecido.
[Pai e Mãe] Laura, Laura!
-Silêncio-
[Laura] O que?
-Silêncio-
Eu sabia o que tinha acontecido, mas precisava ouvir alguma coisa. E como disse, não tinha ânimo para levantar e ir ver o que realmente acontecera.
[Laura] O que?
Não me respondiam. Comecei a me desesperar.
[Laura] Mãe, Pipo*, o que foi? Mãe, Pipo!
[Mãe] O passarinho morreu.
Fiquei alguns segundos em minha cama, então decidi ir para a sala.
[Pai] Eu achei que ele estivesse desmaiado, até tentei reanimar ele. Eu coloquei ele no parapeito da janela.
Fui até lá. Pobre bichinho. Passei o dedo em seu corpo. Tudo bem que ele podia ter sarna…mas era um passarinho morto, e no fundo no fundo eu ainda tinha esperanças de que ele se levantasse. Assoprei sua cabecinha, os olhos fechados, a asa meio aberta.
Ele batera no espelho. Lembrei-me daquela frase do Seinfeld: tudo bem o passarinho achar que tem outra sala, mas por que ele não tenta ao menos desviar do outro passarinho?
Acordei minha irmã, contei a tragédia e chorei. Um pouco mais tarde, voltei a dormir.
[Ainda no mesmo dia, 10:40 da manhã]
Acordei novamente. Fui ver o passarinho, ainda morto. Droga! Eu achava que ele já iria ter acordado e voado quando eu levantasse. Estava realmente morto. Continuava realmente morto.
E essa é a trágica história do passarinho que entrou na minha casa para morrer. Não sei se fora um bom passarinho, se merecera tão horrível morte. Sei que morreu (na verdade nenhum passarinho merece morrer assim).
Segundo a Duta, “o passarinho se encandeia com o espelho, não vê mais nada e bate. É que nem quando você acaba de pintar uma parede intera branca, eles fazem a mesma coisa”. Só não sei o que é encandeia, mas foi uma boa explicação.

Olha que fofo! Essa é a minha pequena homenagem ao passarinho.
(OBS.: existe paraíso dos passarinhos, que nem o paraíso dos peixes, quando eles são levados pela descarga?)
(OBS 2.: não, eu não joguei o pobre passarinho na descarga)
Ah é, esqueci de dizer…uns passarinhos ficaram fazendo barulho no telhado…não sei se aquele era a mãe, tomara que não.