Bolinha de pêlo salva família de ameaça de ursos

Ultimamente tenho visto muitas coisas impagáveis no mundo. Essa reportagem, junto com a foto do poodle-herói, eu não podia deixar de reproduzir.

25/08/2008 - 20h28
Cachorro salva donos ao espantar ursos de jardim em Nova Jersey
Da Associated Press

O cachorro Pawlee, uma mistura entre as raças cocker spaniel e poodle, tem pouco mais de 6 kg, mas virou herói ao assustar uma ursa e seus dois filhotes na manhã do último domingo (24) em Wyckoff, Nova Jersey, nos EUA. A ursa tinha invadido o jardim da casa dos donos do cachorro.


O pequeno Pawlee tem 6,8 kg, mas assustou uma ursa e dois filhotes

“Nós deixamos ele para fora pela manhã e ele correu para o jardim e começou a latir”, disse a dona Fran Osiason. Em seguida, o filho Jacob, de 9 anos, foi verificar o motivo do latido e voltou correndo, avisando que havia três ursos no jardim.

O latido fez os ursinhos subirem em uma árvore, pularem a cerca junto com a mãe e retornarem à floresta.

Pawlee foi adotado pela família Osiason quando ele tinha oito semanas de vida. “Ele é uma pequena bolinha de pêlo”, afirma a dona, maravilhada com sua coragem.

Ursos não são incomuns em Wyckoff, mas Fran Osiason disse que, em dez anos, nunca tinha visto um deles.

em: http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2008/08/25/ult1859u324.jhtm

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“Você dá 5′ e sai também”

Essa semana passei em um sebo. Havia me esquecido como é bom olhar livros em sebos. Nem tanto pelo que se compra, mas pelo tempo que se passa olhando. Os títulos, as capas, os autores… As pequenas frases que se lê, o começo, o meio, o fim de uma história. Parece que só olhar uma prateleira de um sebo corresponde a ler uma biblioteca inteira.

Sempre fico em dúvida entre uns 3 títulos, depois de olhar mais de 10. Levo um, quando levo. Dessa vez, depois de olhar mais de 30, não tive dúvidas. Levei um Fernando Sabino que, salvo por “Martini seco”, é sempre bom. Mas não são as capas rotas, as lombadas descoladas ou a amarelidão das páginas que dão aos sebos esse delicioso tom nostálgico. É que cada livro - além da história escrita - traz consigo uma história. O que, de fato, mais gosto nos sebos, é olhar as dedicatórias.

Certa vez quase comprei um livro só por ela. Era em formato de bolso, estava bem velho. As páginas, amareladas e com manchas de mofo. Mas na primeira folha, lembro bem que o recado começava com “minha querida neta”. Trazia assinatura e data, e possivelmente uma lição de vida. Não comprei.

⎯ Onde é que ficam as crônicas, em literatura brasileira?

⎯ Algumas você vai encontrar em contos, ali no canto (embaixo de teatro). E uma ou outra coisa em crítica literária, do outro lado.

As crônicas nunca foram tão rejeitadas (as duas prateleiras eram lá meio escondidas). Me curvei até o chão. Em um livro de contos (aliás, de crônicas nada encontrei), reparei a gratidão do autor: “A você, que sempre me incentivou e me deu tanta força, [o autor]“. Imagine-se que o livro foi parar em um sebo! Entre os contos, em um curioso livro de poesias, algumas concretas, algumas mais discretas, estava: “Ao bom amigo, melhor filho”. E estava lá, em uma prateleira abarrotada, próxima ao chão, em um canto apertado do espaço.

Mas o que mais me intrigou foi um recado em uma contracapa do próprio Fernando Sabino (no livro “O Gato Sou Eu”). Dizia - espantosamente -:

Seguinte:
O Adriano vai ligar sem ficha, vou cruzar com ele na banca 24h da minha rua. Eu vou sair antes, você dá 5′ [minutos] e sai também.
A gente te espera na banca.

Dava um suspense digno do Fernando Sabino.

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Entrevista Balaio de 2

Disponibilizo aqui no blog a entrevista em áudio com os artistas de poesia e música infantil Paulo Netho e Salatiel Silva, que foi ao ar no programa PUC no Ar, da rádio 9 de Julho. Espero que gostem!

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Uma outra mídia…

A dupla chegou já com um sorriso. Um, munido de um violão, outro, com a língua pronta para recitar um poema ou desafiar em um trava-língua. Foi assim que os autores de poesias e músicas para crianças Paulo Netho e Salatiel Silva chegaram no estúdio de rádio da Pontifícia, onde eu e uma colega, Beatriz Carrasco (munidas de bloquinhos, canetas, e nos esforçando por não dar um nó em nossas línguas) os recebemos para uma entrevista.

Na carreira há mais de 10 anos, os artistas comentaram seu processo de criação, os desafios de se fazer um produto de qualidade para crianças e também como é fazer um programa de rádio para os pequenos (eles apresentam um programa todos os sábados, das 13h às 14h pela rádio Nova Difusora, AM 1540kHz).

A entrevista vai ao ar nesse domingo, 29 de junho, às 15h30, no programa PUC no Ar, da rádio 9 de Julho - 1600kHz. E também pode ser ouvido pela internet, no site: http://arquidiocesedesaopaulo.org.br/radio9dejulho/radio9dejulho_aovivo.htm

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Ó Paí Ó na TV…

Vi hoje na Folha Ilustrada. Só é uma pena que a Monique Gardenberg (que ultimamente tenho mesmo achado a cineasta mais genial atualmente no Brasil) vá dirigir apenas 2 dos 5 episódios.
Será que vai ser incrível que nem o filme… ou a Globo vai conseguir pasteurizar?

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u414916.shtml

22/06/2008 - 10h44

Lázaro Ramos cantará na série “Ó Paí, Ó”, informa Daniel Castro

da Folha Online

A Rede Globo começa a gravar nesta semana, em Salvador, a série “Ó Paí, Ó”, adaptação para TV do filme homônimo, estrelado por Lázaro Ramos e dirigido por Monique Gardenberg. A série vai ao ar no segundo semestre. A informação é da coluna Outro Canal, de Daniel Castro, na Folha deste domingo.

Divulgação
Cena do filme
Cena do filme “Ó Paí, Ó”, com Lázaro Ramos e Emanuelle Araújo

Além de Lázaro, a série terá no elenco Matheus Nachtergaele, João Miguel, Hermila Guedes (de “O Céu de Suely”), Virginia Cavendish e Daniel Boaventura. Monique dirigirá dois dos cinco episódios.

O roteiro foi uma criação coletiva com o Bando de Teatro Olodum.

A série pretende mostrar uma Bahia pop. Lázaro Ramos terá que soltar a voz e cantar 12 músicas. O repertório inclui Wilson Simonal, Jobim, Caetano, Riachão, Odair José, Luiz Caldas, Dalto, Araketu e Skank, entre outros.

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Solidão de pedra

Moradora de rua que conversa com estátua em São Paulo evidencia solidão e desprezo na cidade

Por Laura Barile

Quem passa pelo fim da Avenida Paulista, pela praça Oswaldo Cruz deve ter reparado na mais nova atração da região. A estátua “Índio Pescador”, de Francisco Leopoldo e Silva recebeu novas roupagens – camisetas, enfeites ou flores são já acessórios comuns sobre o bronze da estátua. A autora, nenhuma artista plástica ou manifestante, mas sim uma moradora de rua, que adotou a praça e o índio como trabalho e companhia.

“Essa praça é dele” afirma Maria Aparecida Pereira, ou Cida, como se apresentou. Todos os dias às 6 da manhã ela vai para a praça, toma café na padaria e au travail. “Primeiro é a prefeitura que cuida da praça, depois sou eu. Eu sou que nem um guarda, enquanto eu estou aqui ninguém mexe”, confirma. Dorme na rua, numa região próxima, porque à noite a praça é muito gelada. Quem trabalha por lá não se surpreende mais. O engraxate Fernando Rossi Irias, que trabalha na Oswaldo Cruz, conta: “Ela é uma mulher esforçada, que cada dia vem aqui cedinho, cuida da praça, varre a praça e cuida do índio. E sempre ela pega e põe roupa no índio também”. Cida confirma, sem modéstia, “No que eu trabalho eu sou divina”.

A guardiã da praça tem lembranças confusas de sua história de vida. Conta que veio da Bahia, em busca de trabalho, e que morou alguns anos no bairro da Penha, em São Paulo, mas não responde, ou não se lembra, como chegou às ruas. “Eu sou livre, não tenho marido nem filhos”, comenta, orgulhosa. Mas fica visivelmente emocionada quando começa a falar da antiga patroa, “ela tem tudo, marido, filhos, uma igreja em frente de casa…” A liberdade, em certos momentos, parece se misturar com solidão. “Minha família lá na Bahia, bem distante de mim”, ela conta. Por isso ela passa as tardes na praça, cuidando do índio, vestindo-o quando está frio, e também conversando com ele. “Ele é igual a nós, quando a gente sente frio, busca um lugar quente”, explica.

Ana Paula Pereira Dunes, que trabalha numa banca de jornal próxima conta que Maria Aparecida passou alguns meses fora. “Eu tive que voltar, porque o índio ficou sozinho”, justifica Cida. “Aí o índio falou, Cidinha – ele diz Cidinha para não ter que dizer Maria Aparecida – não vai embora que sem você a praça fica errada, fica tudo seco, as pombinhas morrem, porque ninguém cuida.” Ana Paula conta também que nunca viu a moradora brigar com ninguém que tentou aproximação (dela ou do índio).

Quando questionada sobre isso, Cida responde “falo com todo mundo”, e, como que segredando algo, “as pessoas aqui são muito ricas!” O engraxate Lucas Rodrigues, que também trabalha na praça, comenta que às vezes visitantes trazem roupa e comida para ela, “mas sempre vejo ela sozinha, conversar com alguém é difícil”. Monica Figueiredo, que trabalha na Farmácia Popular, reforça: “ela trata bem quem trata bem ela”.

Daqueles que trabalham por lá, no entanto, poucos se arriscam a ter uma conversa mais longa com a moradora de rua. Fernando Irias justifica: “nós não conversamos com ela porque ela é muito ignorante, muito estúpida. Ela não deixa nem chegar perto do índio”, outros alegam falta de tempo para conversar, por estarem lá a trabalho. A psicóloga Tatiana Barile explica: “as pessoas tem medo, repulsa; não olham para as pessoas que estão na rua”, e comenta que os moradores de rua acabam usando sua aparência suja ou desarrumada como tática para espantarem as pessoas e, assim, se protegerem.

Pela falta de contato, ninguém conhece a história de Maria Aparecida, e mesmo a relação com o índio é nebulosa para muitos deles, que freqüentemente ironizam um romance entre os dois. “Todo mundo dá risada, todo mundo acha super engraçado, que ela cuida dele como se fosse gente”, conta Monica Figueiredo. Ela, no entanto, vê a senhora com bastante sensibilidade: “eu acho que ela trata, ela cuida… não é nem por colocar roupa no índio nem nada, eu acho que é uma carência, de ela não poder fazer isso com uma pessoa, e ela transfere isso para a estátua.”

O caso de Maria Aparecida revela muito além da loucura. Para a psicóloga Tatiana Barile, o caso pode evidenciar uma quebra de vínculos: “O que eu vejo das pessoas de rua é que elas vão sofrendo violências, desilusões, desafetos, e por isso elas vão perdendo as esperanças… Não conseguem lidar com essas dificuldades e acabam indo para a rua, acabam perdendo tudo. E na rua elas buscam outros vínculos, outras pessoas para se relacionar”. A história de Cida exemplifica e leva a seu extremo a solidão na cidade de São Paulo. “Essa aproximação com a estátua está falando na verdade que todo mundo precisa de afeto, de vínculo”, completa Tatiana. Cidinha comenta “Ele [o índio] para mim é um irmão, eu faço por ele o que gostaria que fizessem por mim”.

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Los cajones no Grazie a Dio

Esse é um post com trilha sonora.

Começa com um efeito. Ao invés de cornetas angelicais, ou o ruflar de tambores de guerra, o som suingado de instrumentos de madeira. Vai começar o espetáculo.

Uma vez mais a banda com a qual ensaio desde maio, na posição de cajonera, fará uma apresentação. Dessa vez no Grazie a Dio, participando do Pod Festival, com exibição ao vivo pela internet.

Abaixo repasso a divulgação (estão todos convidados!):

 flyer los cajones

LOS CAJONES”, integra várias expressões artísticas em um só espetáculo. Difundindo a musica Afro-Peruana com música, poesia, dança e sapateado apresenta o Festejo, o Lando e Alcatraz entre outras influências.

“LOS CAJONES” é direcionado a promover e fomentar o intercâmbio cultural Latino Americano. Utilizando o cajon como atrativo, queremos divulgar a riqueza e beleza da negritude sul americana.

Nesta noite desfrutaremos da famosa culinária Peruana, pratos como: Aji de Gallina, Lomo Saltado, y Ceviche.

O evento também será transmitido ao vivo pelo site www.podfestival.com / www.podfestival.com/loscajonesdechocolate

Dia: 15 de abril

Hora : 22:00 hs.

Lugar : Grazie a Dio

Rua Girasol, 67 Vila Madalena SP

tel: 11- 30316568 (informações e reservas)

Entrada: 15 reais

 

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Ouvido musical

Sempre me fascinaram as crianças super-dotadas. Este era um americano, de ascendência chinesa, que tocava piano incrivelmente bem. Começou os estudos aos 3 anos, e aos 6 já havia se apresentado no teatro mais importante do seu Estado. O documentário versava delicadamente sobre aquele dom, mostrando um garoto normal, apesar das 7 horas de estudo diário – por escolha própria. Andava de patinete, tinha muitos amigos, e queria mesmo, no futuro, era ser pianista.

Na cena seguinte, ao piano, o garoto ouvia atentamente a nota tocada por seu professor e, de costas para ele, dizia sem grandes esforços qual nota era. “Dó. Fá. Ré.” Em off, a narradora (uma daquelas vozes de dublagem de programa americano, bem grave e confiável) expôs a impressionante estatística: somente uma a cada 10.000 pessoas possuía ouvido musical, ou seja, era capaz (como o garoto de sete anos demonstrava no vídeo) de distinguir uma nota musical apenas ao ouvi-la.

– Não é possível!

Interrompi a atenção de toda a família à TV.

– Eu tenho ouvido musical. Com certeza eu tenho, e com certeza essa estatística está errada, onde já se viu? Achar que só uma a cada dez mil tem esse dom! Não tem o menor cabimento, porque…

E continuaria, mesmo com os protestos gerais de que eu estava enganada, se minha mãe não tivesse se erguido calmamente e se dirigido ao piano.

– Que nota eu estou tocando?

Pensei. Repassei as notas na minha mente. Dó, ré, mi, fáaa… fáaa…

– É um fá – disse com toda certeza que podia transmitir.

– Bom… quase, era um sol –  tocou outra nota – E agora?

Novamente, me concentrei, agucei o ouvido e repassei a escala mentalmente.

– É um si!

– Não, mi. Você não tem ouvido musical.

Fechou o piano e voltou a ver TV.

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Amanhã, na ULM

Mais uma apresentação de “Los Cajones”, agora na Universidade Livre de Música (antigo Centro de Estudos Musicais Tom Jobim), Unidade Luz (a apresentação é aberta ao público e gratuita).

Los Cajones

Liderado por Chocolate Riveros, Los Cajones é uma banda que integra várias expressões artísticas em um só espetáculo, difundindo a música afro-peruana com poesia, dança e sapateado. Apresenta o Festejo, o Lando e Alcatraz entre outras influências. É direcionado a promover e fomentar o intercâmbio cultural latino-americano, utilizando el cajon como atrativo para divulgar a riqueza e beleza da negritude sul-americana.

 

Serviço

09 de abril • quarta-feira • 15h

Auditório Zequinha de Abreu

ULM - Núcleo Luz

Largo General Osório, 147 - Tel.(55 11) 3221.3929

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No centro da cultura

Centros culturais e museus ocupam o espaço do Centro de São Paulo, dando vida nova a um dos lugares mais agitados da cidade

Por Laura Barile

O Centro de São Paulo apresenta um ritmo frenético. Contrapondo-se à pressa dos que trabalham pela região, ou daqueles que têm o Centro apenas como passagem em seu itinerário, os Centros Culturais representam um vácuo, um espaço capaz de mudar a medida de tempo dentro da vida corrida dos paulistanos. Com fotografias, videoinstalações e apresentações diversas, os Centros Culturais representam um descanso para pernas, olhos e ouvidos daqueles que transitam pela cidade.

É assim que as pessoas acabam saindo do burburinho do centro para acompanhar o burburinho vivo das imagens. A exposição do Centro Cultural da Caixa, “Arte e Música”, se apropria da correria da região – ele se encontra em plena Praça da Sé – para criar um espaço em que várias expressões do som evocam, contraditoriamente, o silêncio. “A idéia é exatamente essa de escolher um lugar que é barulhento e dar um espaço extra, quer dizer, é um mundo dentro de outro mundo”, explica a artista visual Chang Chi Chai, que é uma das expositoras.

Por isso é que não é só o público requintado que comparece às exposições no Centro Cultural da Caixa. “Eu passei por curiosidade um dia na porta e entrei, aí se tornou aqui o meu cantinho também”, conta Marilda Santos de Souza, que desde fevereiro trabalha em um projeto social com mulheres prostituídas no Centro. “Como eu trabalho por aqui eu venho antes, para estudar, mas quando tem exposições eu gosto de ver.” O carregador Antonio Fialho de Brito, de 74 anos, trabalha por uma empresa terceirizada no prédio, mas sempre pára para ver as exposições do local. “Varia demais o tipo de exposição, tem coisas mais agradáveis, que chamam mais atenção, outras não”, relata. É que o que é exposto no Centro acaba contemplando a realidade da região. “Outro dia eu vim e tinha uma exposição de mulheres, mulheres com vários rostos, e isso me fez também voltar lá fora, tantos rostos que eu via e que às vezes passa tão desapercebido. Nesse momento eu fui parar e olhar isso como um todo”, completa Marilda.

A monitora de exposição Viliane Pinheiro confirma essa tendência: “Aqui tem diversidade do público, no âmbito social: tem gente do albergue, que pára no centro de leitura para ler, cada exposição nova que abre eles vem, fazem perguntas… E também vêm colegas dos artistas, ou então quem viu no jornal e veio especialmente para a exposição. É uma troca muito boa, porque tem muita diversidade de pessoas e de idéias”. O prédio, inaugurado pelo presidente Getúlio Vargas em 1939, também abriga uma exposição permanente: salas e escritórios do início do século XX foram conservados em sua integridade (livros, estantes, móveis e quadros), tais como a Sala da Presidência, na qual figura um quadro que retrata Getúlio.

Outra opção de cultura no centro é o Centro Cultural Banco do Brasil, na rua Álvares Penteado. Também funcionando em um edifício histórico, ele oferece exposições de arte, apresentações de música e teatro e exibições de filmes em uma sala própria de cinema. O espaço, no entanto, mesmo oferecendo todas as atividades gratuitamente, apresenta um caráter mais elitista em seu público.

Intelectuais, universitários e estrangeiros ocupam as salas silenciosas e bem arrumadas que abrigam a exposição “Um círculo de ligações”, de obras dos japoneses Foujita, Kaminagai e Mori. “O Centro Cultural da Caixa é na mesma região, porém o público é totalmente diferente. Lá é bem na Sé, e eles oferecem internet gratuita. Aqui e lá é praça da Sé, mas aqui é mais elitizado”, comenta Alcides Neto, que trabalha como educador na exposição. “Até mesmo pela ostentação do prédio. Aqui você entra, se você estiver fora do perfil, por exemplo mascando chiclete ou falando ao celular, os seguranças vêm falar com você. Isso exige uma postura que quem é da elite tem”, completa Patrícia São Miguel, também educadora.

Mas ambos não deixam de exaltar o papel conciliador da cultura. “A arte, ao mesmo tempo, aproxima classes sociais. Se um estudante de uma universidade de elite e uma pessoa de uma classe mais baixa curtirem arte, é muito provável que eles tenham uma relação no mínimo amigável”, afirma Neto. As estudantes de artes Vania Regina de Souza e Giane Lima da Silva visitaram o Centro Cultural Banco do Brasil pela primeira vez, por indicação da faculdade, e gostaram da experiência. Vania, que trabalha e estuda na região de Itaquera ficou impressionada ao ver como o espaço fica cheio, mesmo durante um dia de semana. “Estou achando interessante, são 100 anos da colonização, então acho que as pessoas estão mais interessadas em conhecer a cultura japonesa.” Giane completa: “Vamos começar a freqüentar mais o Centro”.

Cruzando a praça chega-se à rua do Carmo, onde está localizado o SESC Carmo, freqüentado diariamente por cerca de 3 mil pessoas. Como a região tem muitos trabalhadores, cerca de 2500 desses visitantes vão à unidade para refeições (almoço ou jantar). O contato com a arte acaba vindo durante esse horário livre do dia de trabalho. Atividades literárias, musicais, e exposições artísticas, entre outras atividade culturais acabam sendo assimiladas sem que haja necessariamente intenção do espectador. A coordenadora de comunicação da unidade, Dóris Larizzatti, explica: “As pessoas que estão em horário de almoço não só usufruem da refeição, mas assistem, participam de uma leitura dramática, uma contação de histórias, um espetáculo musical, porque na hora do almoço há espetáculos musicais também, os intervalos sonoros.”

O passeio cultural termina, contraditoriamente, no marco de fundação da cidade. Ao lado da Secretaria da Justiça – um prédio antigo e imponente, ostentando à sua frente um brasão – e à frente do monumento “Glória Imortal dos Fundadores de São Paulo” (em que uma mulher, representando a cidade, ergue aos céus um ramo de louros, uma foice e uma tocha), o Museu Pe. Anchieta se encontra no Pateo do Collegio, e para entrar é cobrado um preço acessível.

O maior público do museu, entretanto, são os turistas e os grupos escolares. “Os paulistanos normalmente não conhecem o museu, porque têm pressa, alegam falta de tempo”, comenta sua supervisora, Carla Galdeano. Mas ela afirma que nos últimos tempos tem aumentado a tendência dos paulistanos de conhecerem a história da cidade. “É a fundação de uma Vila, de um povoado, que virou essa cidade tão grande, por isso é importante trabalhar com documentação”, explica, após revelar que é feita uma pesquisa constante no acervo do museu, para que a exposição possa explicar com clareza, para paulistanos e outros visitantes, como surgiu São Paulo.

Os amigos William Marcos Botelho e Ernesto Rodrigues Jr. estavam a trabalho no centro e aproveitaram uma pausa para visitar os resquícios da primeira edificação da cidade: uma parede de taipa de pilão, construção do século XVI feita de uma mistura de areia, barro, fibras e sangue de boi. William, que é formado em história, ficou sabendo de sua existência por um programa de rádio, e resolveu mostrá-la ao amigo. “É interessante, é como se você voltasse ao passado e vivesse isso”, comenta. “Como você está na correria, na hora que você pára, senta para almoçar ou tomar um café você consegue ver as belezas que não enxerga no dia-a-dia”, conta Rodrigues Jr. A supervisora do museu, Carla Galdeano, confirma essa impressão. “O que é mais comum são as visitas no horário de almoço”, explica. Ao lado do museu é oferecido serviço de café, no entanto, devido ao preço, não são todos que entram no espaço para conferir. O guarda civil Osmar Fonseca, que desde 1970 trabalha no Centro, ao lado do museu, confirma “A maioria do povo em si passa direto e não tem interesse pela cultura.” E completa, com a sabedoria de quem vive o Centro, “O que se poderia fazer é um trabalho de incentivo para as pessoas terem interesse em visitar isso”.

Serviço

Centro Cultural da Caixa Econômica Federal

3107-0498

Praça da Sé, 111

2a a 6a das 10h às 16h

Centro Cultural Banco do Brasil

3113-3651

Rua Álvares Penteado, 112

3a a domingo das 10h às 20h

SESC Carmo

3111-7000
Rua do Carmo, 147

2a a 6a das 9h às 20h

Museu Padre Anchieta

3105-6899

Pateo do Collegio

3a a domingo das 9h às 17h

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