Centros culturais e museus ocupam o espaço do Centro de São Paulo, dando vida nova a um dos lugares mais agitados da cidade
Por Laura Barile
O Centro de São Paulo apresenta um ritmo frenético. Contrapondo-se à pressa dos que trabalham pela região, ou daqueles que têm o Centro apenas como passagem em seu itinerário, os Centros Culturais representam um vácuo, um espaço capaz de mudar a medida de tempo dentro da vida corrida dos paulistanos. Com fotografias, videoinstalações e apresentações diversas, os Centros Culturais representam um descanso para pernas, olhos e ouvidos daqueles que transitam pela cidade.
É assim que as pessoas acabam saindo do burburinho do centro para acompanhar o burburinho vivo das imagens. A exposição do Centro Cultural da Caixa, “Arte e Música”, se apropria da correria da região – ele se encontra em plena Praça da Sé – para criar um espaço em que várias expressões do som evocam, contraditoriamente, o silêncio. “A idéia é exatamente essa de escolher um lugar que é barulhento e dar um espaço extra, quer dizer, é um mundo dentro de outro mundo”, explica a artista visual Chang Chi Chai, que é uma das expositoras.
Por isso é que não é só o público requintado que comparece às exposições no Centro Cultural da Caixa. “Eu passei por curiosidade um dia na porta e entrei, aí se tornou aqui o meu cantinho também”, conta Marilda Santos de Souza, que desde fevereiro trabalha em um projeto social com mulheres prostituídas no Centro. “Como eu trabalho por aqui eu venho antes, para estudar, mas quando tem exposições eu gosto de ver.” O carregador Antonio Fialho de Brito, de 74 anos, trabalha por uma empresa terceirizada no prédio, mas sempre pára para ver as exposições do local. “Varia demais o tipo de exposição, tem coisas mais agradáveis, que chamam mais atenção, outras não”, relata. É que o que é exposto no Centro acaba contemplando a realidade da região. “Outro dia eu vim e tinha uma exposição de mulheres, mulheres com vários rostos, e isso me fez também voltar lá fora, tantos rostos que eu via e que às vezes passa tão desapercebido. Nesse momento eu fui parar e olhar isso como um todo”, completa Marilda.
A monitora de exposição Viliane Pinheiro confirma essa tendência: “Aqui tem diversidade do público, no âmbito social: tem gente do albergue, que pára no centro de leitura para ler, cada exposição nova que abre eles vem, fazem perguntas… E também vêm colegas dos artistas, ou então quem viu no jornal e veio especialmente para a exposição. É uma troca muito boa, porque tem muita diversidade de pessoas e de idéias”. O prédio, inaugurado pelo presidente Getúlio Vargas em 1939, também abriga uma exposição permanente: salas e escritórios do início do século XX foram conservados em sua integridade (livros, estantes, móveis e quadros), tais como a Sala da Presidência, na qual figura um quadro que retrata Getúlio.
Outra opção de cultura no centro é o Centro Cultural Banco do Brasil, na rua Álvares Penteado. Também funcionando em um edifício histórico, ele oferece exposições de arte, apresentações de música e teatro e exibições de filmes em uma sala própria de cinema. O espaço, no entanto, mesmo oferecendo todas as atividades gratuitamente, apresenta um caráter mais elitista em seu público.
Intelectuais, universitários e estrangeiros ocupam as salas silenciosas e bem arrumadas que abrigam a exposição “Um círculo de ligações”, de obras dos japoneses Foujita, Kaminagai e Mori. “O Centro Cultural da Caixa é na mesma região, porém o público é totalmente diferente. Lá é bem na Sé, e eles oferecem internet gratuita. Aqui e lá é praça da Sé, mas aqui é mais elitizado”, comenta Alcides Neto, que trabalha como educador na exposição. “Até mesmo pela ostentação do prédio. Aqui você entra, se você estiver fora do perfil, por exemplo mascando chiclete ou falando ao celular, os seguranças vêm falar com você. Isso exige uma postura que quem é da elite tem”, completa Patrícia São Miguel, também educadora.
Mas ambos não deixam de exaltar o papel conciliador da cultura. “A arte, ao mesmo tempo, aproxima classes sociais. Se um estudante de uma universidade de elite e uma pessoa de uma classe mais baixa curtirem arte, é muito provável que eles tenham uma relação no mínimo amigável”, afirma Neto. As estudantes de artes Vania Regina de Souza e Giane Lima da Silva visitaram o Centro Cultural Banco do Brasil pela primeira vez, por indicação da faculdade, e gostaram da experiência. Vania, que trabalha e estuda na região de Itaquera ficou impressionada ao ver como o espaço fica cheio, mesmo durante um dia de semana. “Estou achando interessante, são 100 anos da colonização, então acho que as pessoas estão mais interessadas em conhecer a cultura japonesa.” Giane completa: “Vamos começar a freqüentar mais o Centro”.
Cruzando a praça chega-se à rua do Carmo, onde está localizado o SESC Carmo, freqüentado diariamente por cerca de 3 mil pessoas. Como a região tem muitos trabalhadores, cerca de 2500 desses visitantes vão à unidade para refeições (almoço ou jantar). O contato com a arte acaba vindo durante esse horário livre do dia de trabalho. Atividades literárias, musicais, e exposições artísticas, entre outras atividade culturais acabam sendo assimiladas sem que haja necessariamente intenção do espectador. A coordenadora de comunicação da unidade, Dóris Larizzatti, explica: “As pessoas que estão em horário de almoço não só usufruem da refeição, mas assistem, participam de uma leitura dramática, uma contação de histórias, um espetáculo musical, porque na hora do almoço há espetáculos musicais também, os intervalos sonoros.”
O passeio cultural termina, contraditoriamente, no marco de fundação da cidade. Ao lado da Secretaria da Justiça – um prédio antigo e imponente, ostentando à sua frente um brasão – e à frente do monumento “Glória Imortal dos Fundadores de São Paulo” (em que uma mulher, representando a cidade, ergue aos céus um ramo de louros, uma foice e uma tocha), o Museu Pe. Anchieta se encontra no Pateo do Collegio, e para entrar é cobrado um preço acessível.
O maior público do museu, entretanto, são os turistas e os grupos escolares. “Os paulistanos normalmente não conhecem o museu, porque têm pressa, alegam falta de tempo”, comenta sua supervisora, Carla Galdeano. Mas ela afirma que nos últimos tempos tem aumentado a tendência dos paulistanos de conhecerem a história da cidade. “É a fundação de uma Vila, de um povoado, que virou essa cidade tão grande, por isso é importante trabalhar com documentação”, explica, após revelar que é feita uma pesquisa constante no acervo do museu, para que a exposição possa explicar com clareza, para paulistanos e outros visitantes, como surgiu São Paulo.
Os amigos William Marcos Botelho e Ernesto Rodrigues Jr. estavam a trabalho no centro e aproveitaram uma pausa para visitar os resquícios da primeira edificação da cidade: uma parede de taipa de pilão, construção do século XVI feita de uma mistura de areia, barro, fibras e sangue de boi. William, que é formado em história, ficou sabendo de sua existência por um programa de rádio, e resolveu mostrá-la ao amigo. “É interessante, é como se você voltasse ao passado e vivesse isso”, comenta. “Como você está na correria, na hora que você pára, senta para almoçar ou tomar um café você consegue ver as belezas que não enxerga no dia-a-dia”, conta Rodrigues Jr. A supervisora do museu, Carla Galdeano, confirma essa impressão. “O que é mais comum são as visitas no horário de almoço”, explica. Ao lado do museu é oferecido serviço de café, no entanto, devido ao preço, não são todos que entram no espaço para conferir. O guarda civil Osmar Fonseca, que desde 1970 trabalha no Centro, ao lado do museu, confirma “A maioria do povo em si passa direto e não tem interesse pela cultura.” E completa, com a sabedoria de quem vive o Centro, “O que se poderia fazer é um trabalho de incentivo para as pessoas terem interesse em visitar isso”.
Serviço
Centro Cultural da Caixa Econômica Federal
3107-0498
Praça da Sé, 111
2a a 6a das 10h às 16h
Centro Cultural Banco do Brasil
3113-3651
Rua Álvares Penteado, 112
3a a domingo das 10h às 20h
SESC Carmo
3111-7000
Rua do Carmo, 147
2a a 6a das 9h às 20h
Museu Padre Anchieta
3105-6899
Pateo do Collegio
3a a domingo das 9h às 17h